Crônicas

NATAL!

Do livro FOLHAS SOLTAS

25 DE DEZEMBRO

DONATO RAMOS

 

A cidade estava quieta. Movimento normal de uma normal tarde de dezembro.

Nessa época do ano um frio intenso dominava a cidade.Há oito dias o frio vinha habitando aquela localidade. O último raio de sol poente iluminava a modesta casa de janelas largas.

O menino brincava no quintal. Sua mãe desfia com habilidade, perto da janela, um grosso rolo de barbante para tecer alguma coisa no velho tear de madeira feito pelo marido. A mulher ergue os olhos cansados do serviço. Nota o adiantado das horas.

- Jesus - diz ela em voz alta - largue esse cachorro sujo de terra e vá dar milho pras galinhas...

- Já vou, mãe...

O menino levanta-se. Dá alguns passos e volta-se para a mãe.

- Mamãe... a senhora sabia que hoje é uma data muito importante...?

- Por quê? Hoje é um dia igual a tantos outros, meu filho.

- É que hoje, 25 de dezembro, faz um ano que encontrei o Fiel na rua, lembra-se? Por isso é importante!

Dá alguns passos e, novamente, pergunta:

- Mamãe, a senhora fez o bolo do meu aniversário?

- Fiz, sim, filho. Mas só de noite.

- Ah! Mas o dia é importante, mesmo!

Sorriu, gostando da saída espirituosa e foi dar milho pras galinhas.

Maria e José, seus pais, sorriam.

Eram felizes.

UMA ÉPOCA SEM MILAGRES

Do livro FOLHAS SOLTAS

Donato Ramos

(Academia Cascavelense de Letras)

 

UMA ÉPOCA SEM MILAGRES

 

Perdoem-me contar uma história (já passados alguns anos) onde há tragédia, sonhos desfeitos e interrogações. Muitas interrogações.

Por que será que Deus fez um mundo assim?

De quem é a culpa disso que vou contar?

Nos meus setenta anos, já vi muita coisa, muitas coisas me contaram e se você tiver um tempinho, senta aqui ao meu lado e escute: não vai ser fácil, no entanto, ouvir sem se espantar com a brutalidade da vida, mas é necessário prestar atenção e, talvez, tirar uma conclusão pelo menos aceitável. Escute, amigo:

José Machado, filho de José e Maria, residentes em Xanxerê, oeste catarinense, tinha seis anos de idade.

E, como toda criança, brincava com sua irmã mais nova.

Como sempre acontece veio um desentendimento.

Na sua inocência infantil, José muniu-se de uma enxada e bateu na cabeça da irmã, provocando a sua morte instantânea.

Aí, tudo começou. O começo do fim. De desespero.

Retirado de casa e levado para Chapecó onde, sem ter lugar apropriado, foi conviver na cadeia local, entre facínoras de toda a natureza.

A partir daí, José nunca mais ouviu falar da sua família.

Seu mundo passou a ter uma diminuta dimensão, mas grandiosamente trágico.

Uma cela fria, de paredes lisas, sevícias, medo, choro, ameaças, xingamentos.

Ganhou o apelido de Mazzaropi e acostumou-se a comer mal, dormir pouco e a ouvir palavrões. Vou resumir:

Primeiro perdeu a visa esquerda. Depois, a direita. Cegueira. Problemas no ouvido, perdendo parte da audição.

Depois de sete anos, a imprensa chapecoense – com o advento desse tal jornalismo investigativo - descobriu o fato.

Denúncia pública!

Ficaram sabendo, então, que José tinha medo e que dizia constantemente:

- Me tirem daqui, pelo amor de Deus!... Arrumem alguém que cuide de mim... Não agüento mais tudo isso! Eu tenho medo...

E chorava porque tinha medo.

Sete anos na cadeia de Chapecó. Já estava com treze.

A Coordenadoria Regional da Fundação Catarinense do Bem Estar do Menor arranjou um local para José ficar.

Mas José já havia perdido a família, a irmã a quem inocentemente havia matado numa brincadeira de criança. Mas José estava cego. José estava surdo. José estava muito doente. Roubaram daquela criança o direito de viver. Roubaram de uma criança o direito de ser filho de Deus, como tanta gente pensa ser.

Não tenho mais idade para questionar Deus. Longe de mim essa idéia!

Não inventei esta história. É real. Mas como tudo o que é real parece invenção no mundo em que vivemos, fica apenas uma pergunta que faço a vocês todos que me ouvem ou lêem: de quem é a culpa? Por que a omissão? Por quê ninguém quer ouvir esta e outras histórias que falam das interrogações...?

Por quê...?

UM HOMEM E A CIDADE

(do livro FOLHAS SOLTAS)

UM HOMEM E A CIDADE

 (especial para os Rio-sulenses)

DONATO RAMOS

Academia Cascavelense de Letras

 

 

Foi há muitos anos. A cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina, ainda estava de calças curtas e se criança de verdade fosse, ainda seria o tempo das caçadas com estilingue.

A cidade, se criança fosse nessa época, pelas poucas esquinas que em si existissem, jogaria bolinha de gude.

Nessa época em que ele aqui chegou, há muito tempo, esta era uma cidade que começava a aprender a andar.

A cidade, se criança de verdade fosse, ainda brincaria nas poças d’água, tomando chuvisco fino, molhando os pés descalços nas correntezas deslizantes, pelas ruas desprovidas de pedras ajuntadas, de sarjetas e calçadas.

A cidade era criança suja, borrada, raquítica, pobre mesmo, sem vestimentas e o frio dos seus poucos anos somente era aquecido pelo ardor de crescer, daquela vontade de floris, qualidade que, desde criança, a gente nota em cidades-menina.

Foi nessa época que ele aqui chegou. E seguiu com a cidade. À cada acontecimento ele estava à frente, organizando, planejando, acalentando a cidade-menina em seus braços magros, cantando cantigas de ninar, com sua voz moça, valente, cheia de vida, sonhadora como aquela cidade-menina.

A cidade cresceu com ele; ele viu a cidade crescer. Ajudou em tudo, colaborou em todas as grandes e pequenas obras, lutou por ela, viveu por ela, fez tudo por ela e esqueceu-se de que quando a gente dá aos outros acaba esquecendo-se de si próprio.

Mas mesmo assim, ele era feliz!

A cidade-menina foi tomando juízo, foi pegando formas, foi enriquecendo, conhecendo novas ruas e aterros... e avenidas... melhoramentos... calçado novo, como em dia de festa... e ele via, embevecido, a cidade-menina tornar-se moça e sorriu feliz.

Havia dado tudo de si. As noites indormidas sobre u’a máquina de escrever era a sua luta. As madrugadas foram amontoando-se ao longo do corredor da sua vida e foram tantas que ele acabou se acostumando a não ter noites dele mesmo.

A cidade-menina tornou-se cidade-moça e cidade-mulher e, como toda mulher, era coquete, esquecida, cheia de formas e gostos.

Um dia ele notou que a cidade-coquete tinha gostos às vezes exagerados. Ainda tinha forças para lutar. E lutou! Defendeu a sua honra de cidade-moça através da sua vida jornalística e tornaria a defendê-la fosse como fosse, desanuviando idéias e ações que em torno dela girassem e que não ficariam bem numa cidade-mulher da sua qualidade. A cidade não notou que o velho jornalista agora com os cabelos fugindo um a um, os olhos cansados das noites e madrugadas misturados com os tipos da máquina, estavam falando:

- Toma cuidado, menina (ele sempre a teria como menina... Todo pai ou tutor ou amigo não acha que um dia os outros crescem!) - tome cuidado com o que quiserem fazer com você!

E falou. E gritou. Mas a cidade que já foi, há tempos, cidade-menina, não escuta mais.

E a sua voz não foi ouvida. Também, já era rouca pelos anos vividos.

Os anos já se foram em tantas esquinas novas... O velho jornalista tinha os olhos cansados, os dedos dormentes... a alma alquebrada pelas incompreensões...

Fechou a máquina de escrever.

Ah! A dor de vê-la fechada...!

Os papéis amarelecidos de sua estante velha foram encaixotados, cuidadosamente, como quem cheira uma flor de cor suave. Os velhos móveis... as famílias surgidas da sua família e que já haviam partido... tudo eram recordações, apenas. Apenas faltava partir também; E partiu. A cidade nem viu! Não quer dizer que ela o havia esquecido. Não! Os bons amigos a gente nunca esquece. Talvez, um dia, a cidade, agora não mais cidade-menina, olhará em torno de si, à procura de amparo moral e perguntará a todo mundo:

- Você não viu o Jucy...? Jucy Fiúza Lima... Ele sumiu da minha frente...

(E vai procurar naqueles cantinhos do passado, nas esquinas descalças, na sacola de criança sapeca que brincava de bolinha de vidro... Vai pergunta para as pessoas importantes e antigas... o Fornerolli, o Soldateli, pro Haertel, pro Osny Gonçalves, no Clube Caça e Pesca, no Concórdia, vai procurar o Meu Cantinho, no Lindonmar, vai perguntar pro Hirt, pro Schroeder, na Câmara de Vereadores, no Jornal do Cunha o Nova Faze, Hübsh, Nardelli, na Minister, nas Rádios Difusora e Mirador, na casa dos Roussenq, do Siebert, do Danilo Schmidt, no Pamplona, Soar, Theiss, Larsen, Medeiros, Dellagiustina, Demarchi, Gaertner... e tantos outros que o conheceram em Rio do Sul. Vai se cansar).

Não vai encontrar nada a não ser a poeira do tempo brincando de esconder nas birocas que não mais existem pois o calçamento engoliu. E, talvez, chore de saudade pela partida do seu amigo. E, sentada na velha esquina das bolinhas de gude (quando menina ali se sentava) e o Jacy não vai aparecer. Talvez, um dia, a cidade venha a convidá-lo para uma visita mais demorada, tomar a sua mão e dizer:

- Jucy Fiúza Lima... no dia do seu aniversário eu o procurei mas não o encontrei por aí. Você havia se mudado.Mas hoje eu o quero aqui, sentado ao lado dos outros seus amigos, para receber a homenagem que você merece.Sente-se aqui. Receba o seu prêmio. A rua das bolinhas de gude será a nossa homenagem ao velho jornalista que comigo viveu durante tantos anos, como amigo, como incentivador... Jucy, sente-se aqui, Ao nosso lado. E receba o abraço de agradecimento pelo muito que fez. Você não foi pessoa anônima na nossa vida. Na vida de Rio dói Sul. Foi um dos melhores amigos. E, se hoje sou o que sou, no concerto das demais cidades catarinenses, se hoje eu, cidade de Rio do Sul, sou o que sou, também devo a você.

E, aí, será a vez do Jucy chorar.

OS SONÂMBULOS

OS SONÂMBULOS

Donato Ramos

Os homens lá vão e lá vêm, sempre com os olhos e o pensamento pregados nas coisas que adquirem e gritam, bem alto:

É MEU! QUE NINGUÉM ME TOME! É MEU!

“Os punhais continuarão a florescer”, enquanto o homem não aprender, de vez, o respeito pela dignidade humana. O homem se esquece que os outros também adquirem alguma coisa com o passar dos anos. Por que tem que ser apenas alguns?

Hoje planta-se uma rosa no canteiro que é da gente. Um dia, ao acordar, havemos de encontrá-la desfeita, abandonada pelas aléias do jardim silente, aquela flor que nasceu tão linda! Arruma-se outra flor. No outro dia, a mesma coisa se deu porque alguém resolveu dar mais cor sem ser artista, resolveu faze-la maior como a sua ganância. Em cada pétala caída, voltada para a luz como a pedir socorro, num último aceno treme a gota que o céu chorou.

Abra os olhos, amigo! Veja a sombra ao seu lado! Ela está aí, esperando a vez.Talvez seja o seu melhor amigo, os seus melhores irmãos. Os punhais continuam a crescer e a florescer sobre a terra e muita gente vai desrespeitar a sua dignidade. O sangue de suas rosas derramado será, também, esquecido.

“Existem sonâmbulos à nossa volta...!”

Um dia você percebe uma folha solta que os sonâmbulos deixaram atrás de si. E você, como eu, como a grande multidão de quem não vê, continuaremos passando à procura de novos canteiros, para um novo plantio de rosas... E, para sobreviver, você continuará esquecendo o que lhe fazem. Você e eu existimos para que os sonâmbulos possam continuar também existindo.

Talvez, um dia, num átimo de segundo, na meia-noite de nossas vidas, poderemos reconhecê-los, abraçá-los e agradecer. Graças a eles, aos sonâmbulos, não nos esquecemos do nosso plantio.

Eternamente.

OLHA O PASSARINHO...!

(do livro FOLHAS SOLTAS)

OLHA O PASSARINHO...! (11.6.60)

DONATO RAMOS

 

 

Um casamento morganático? Não, senhores.

Um plebeu...? Não, senhores!

Um fotógrafo.

Uma princesa dos contos de fadas...? Não!

Made in England.

E “made”, nos conformes!

O sapato para o seu pé de Cinderela, Margareth encontrou, afinal!

Antigamente, a escolha ficava na dependência de outras pendentes dependências....

Compreendo que as Casas Reais da Europa não tivessem gostado da escolha da princesa. Afinal de contas, há inúmeros jovens, nobres e mais ou menos desempregados que anseiam por uma solução matrimonial... segura!

O ruim mesmo é que as cabeças coroadas vão desaparecendo da face da terra à medida que os anos vão passando.

Na Antigüidade foi um tal de cortar cabeças que hoje os jovens não encontram uma coroazinha, como Margareth, para um casamento de futuro promissor e livre de prestações...

Antony Jones, afinal, não é plebeu... de todo. Seu pai é Conselheiro da Rainha, com peruca e tudo!

Escolheu o melhor flagrante de sua vida: passou pela sua objetivo e objetivo, aquela a quem prometeu amor, confortar e manter, na doença e na saúde, nas alegrias e nas tristezas...

No entanto, verdade se diga, salvou-se o prestígio britânico, salvou-se a já madura princesa de cair no barricão.

- Olha o passarinho, querida!

Ela olhou.

CLIC!

BOA TARDE, PASSADO!

Do livro FOLHAS SOLTAS

BOA TARDE, PASSADO.

DONATO RAMOS

Academia Cascavelense de Letras

 

 

 

A vida continua sempre com o seu ritmo de quimeras mas você não mais voltará... e é bom que não venha. Não saberia mais vivê-lo.

Sei que você, passado, não chegará de mansinho fazer morada na minha sensibilidade porque houve um destino entre nós.

Você não abrirá os lábios com o sorriso de Papai Noel, como antes, porque houve o tempo entre nós.

Você, agora, é passado, simplesmente.

Eu cresci. Cresci por fora. Mas sua lembrança é tão grande, principalmente nesta época de Papai Noel que nem a noite, nem o destino poderão roubá-lo de mim.

Você, como o Papai Noel de outrora, se torna cada vez mais belo, com aquela felicidade triste, com aquela conformação triste de ver o tempo passar. Hoje, até Papai Noel é passado. As crianças de hoje, amanhã, também terão o seu Papai Noel do passado e sonharão todo o sonho, todas as noites. Os destinos não podem evitar o sonho.

Enquanto se é criança e se tem Papai Noel, o sol inunda a todos de sorrisos e toda a alegria sem destino secará com o calor do outro dia, com as ilusões mortas, quando sentimos a realidade de Papai Noel. Quando se é criança, quando Papai Noel existe, como é bom! Eu me lembro!  Um dia você disse:

- Este ano tá tudo muito caro. Só consegui pintar o carrinho velho...

Quando se é criança, quando não se tem mais Papai Noel, abrimos os olhos com os restos de sonhos e mais uma vez sentimos toda a vida do presente.

Boa tarde, passado!

Você voltou através de um sorriso de garoto com os olhos fixos num revólver de espoleta que se encontrava na vitrina.

Você voltou, passado, mas não trouxe a alegria que eu tanto esperava.

passado: você sabe que o destino é muito frágil para separar duas vidas e hoje eu me vi novamente à frente de uma vitrina de brinquedos de Papai Noel.

Os destinos se separam, as vidas não são as mesmas vidas, mas o garoto que via um revólver de espoleta naquela vitrina da Papelaria Rangel de Itajaí, não era um desconhecido:

ERA EU.

FOLCLORE POLÍTICO

 

Donato Ramos – Academia Cascavelense de Letras

 

 

NOMES DA POLÍTICA

 

TAPIRA é uma cidade paranaense que bem poderia ser chamada de São José. Talvez, até, após o acontecido nas últimas eleições, um plebiscito force de mudança de nome. Veja porquê:

Estou lendo no Diário da Justiça a relação completa dos eleitos e suplentes de 1988.

Em Tapira foram eleitos:

JOSÉ DE SOUZA, para PREFEITO.

Para vice, JOSÉ DE SOUZA.

Até aí nada demais, porque um deles é, também, Batista. No entanto, a curiosidade me leva a ler os nomes que constam como vereadores e suplentes do PTB e do PMDB:

José Belarmino, José Bozolla, José Pinto, José Frigato, José da Silva, José de Andrade e José Franco.

Pode...?

E a BICHARADA?

O jogo do bicho está liberado de uma vez por todas no Paraná. A curiosidade me leva a notar, por alto, algo mais na relação dos eleitos no Estado: a bicharada está tomando conta dos poderes Executivo e Legislativo paranaenses. Senão, vejamos:

É justificada a calma reinante em todo o Estado:

35 vereadores (ou suplentes) de nome CORDEIRO.

22 de nome CARNEIRO.

10 Bezerra.

Aqueles que poderiam até brigar tem um cada: BÚFALO, FALCÃO e GALO.

Temos, ainda:

5 LOBO, 5 LEÃO, 18 COELHO, 1 LEITÃO, apenas 1 TICO-TICO.

Mas existem aqueles que exageram no grupo seco:

Em Peabiru tem um LEÃO COELHO.

Em Guaratuba, um CORDEIRO CARNEIRO.

Em Xambrê, 1 CORDEIRO MANSO.

Na seqüência da leitura vamos encontrando coisas curiosas:

PINTO tem às pamparras! Mas, nota-se, a maioria dos PINTO está na suplência, porque nem todos (e isto é biológico!) chegam na frente.

Nomes próprios impróprios e nomes impróprios próprios, também existem. Ou seja, aqueles que, por força do nome deveriam ser, mas não são. E vice-versa.

Não é que tem um cara muito bacana em Nova América da Colina cujo nome é CARETA?

Um SAPATEIRO, vereador em Marilena, que não sabe botar uma meia-sola?

Em Arapoti o prefeito HOMEAR NEGRÃO não é nem escurinho!

Na cidade de Cascavel, não foi eleito prefeito – para não aumentar a relação – o Jacy SCANAGATTA.

Luiz SALA, em Altônia, ficou na cozinha: é suplente e, na mesma cidade, o Anastácio HÉRCULES não mostrou a sua força ficando na suplência. Talvez, pelo seu terceiro nome: MELISSINHA.

O candidato eleito de Balsa Nova tinha certeza de vencer: VITÓRIO SEGURO.

Em Nova Santa Rosa, novas regras serão obrigatórias na administração: foi eleito prefeito o João MODES.

Na cidade de Maringá teve um candidato eleito mesmo sem o voto da mulher: o ADORNO. A mesma coisa com o STOCORNO, do PDC.

Por falar em Adorno e Stocorno, lembro-me que tem o José GAIO, suplente de Campo Bonito que quebra qualquer “gaio” pra qualquer um.

Já o FRACASSO de Foz do Iguaçu, foi o suplente menos votado pelo PMDB.

Em Cascavel tem um vereador dos mais votados que, mesmo não sendo galo, quer ser o dono do terreiro: o FRANGÃO.

Também em Cascavel, por não ter sido reeleito, teve um que não foi aplaudido: o Álvaro PALMA.

Na cidade de Planalto o vice era o mais cotado para ser o prefeito. Insistiram, mas ele não quis, fazendo jus ao nome: MODESTO CÂMERA. Daria um excelente presidente do Legislativo.

O José Martins BARBEIRO, de Primeiro de Maio, não exerce essa profissão e o José GALERA não vai a campo de futebol.

Em Porecatu tem um vereador que detesta baile: Geraldo CARNAVAL.

No PFL de Renascença, o 2º lugar, tá mais que certo: Alberto SEGUNDO.

Enquanto isso, em Imbituva, por incrível que pareça, chegou na frente o Lourenço MOLETA.

Na mesma cidade, o primeiro suplente do PMDB é o MOLETA SOBRINHO e o 1º lugar do PTB é o Sílvio MOLETA.

Já pensaram se corressem em condições normais?

Descobri, também, que existem em Ivaiporã, um SACCO e um PEIDÃO, além do AYMORÉ ÍNDIO DO BRASIL, em Ponta Grossa e Lauro José LIGEIRO, suplente do PMDB em Cambé.

Não acredita? Então, confira se pensa que estou mentindo!

...

(Faço um pedido: os possíveis leitores dessas cidades citadas fariam o favor de confirmar se, hoje, esses candidatos ainda estão na ativa? Afinal, isto aconteceu nas eleições de 88, quando fui candidato a vice, em Cascavel, em caí do GALHO. E notem: meu nome é RAMOS!

Envie E-mail: donatoramos@uol.com.br).

VAMOS DORMIR JUNTOS, ENTÃO!

Do livro FOLHAS SOLTAS

VAMOS DORMIR JUNTOS, ENTÃO!

DONATO RAMOS

 

A viagem fora cansativa. Perderam o ônibus da Agronômica, no Alto Vale do Itajaí, depois de uma noite de libações. Caminharam juntos e muito à procura  um hotel que lhes desse lugar para dormir. Depois de serem recusados por uma infinidade de porteiros chegaram a uma pensão até bem pouco recomendável. Como o que interessava era dormir o resto da madrugada, entraram. O porteiro, ainda sonolento, recebeu-os com cara de poucos amigos.

- Só tem um quarto com duas camas, serve?

- Serve!  Responderam em coro.

Subiram as escadas. Entram no quarto e, mesmo vestidos, deitam-se na mesma cama, deixando a outra vazia, tamanho o porre. Nem acenderam as luzes. João e Joaquim já estão dormindo em pé e não notam o acontecido. Meia hora depois, no escuro completo, João acorda e diz ao outro:

- Joaquim... há um sujeito na minha cama.

- Na minha também, responde Joaquim. Sabe de uma coisa..?

- Hum...?

- Vamos pô-los daqui à tapa prá fora!

E entram  em luta brava. Há um barulho infernal de móveis e gemidos de feridos, seguido do barulho de um corpo que cai no assoalho.

- Sabes...? Acabei e pôr a nocaute o gajo...

E Joaquim, estendido no assoalho, com o nariz sangrando, diz:

- Eu fui menos feliz... o safado me quebrou o nariz e ficou na cama sozinho...

- Deixa ele! Vem deitar na minha cama. Dormiremos juntos, então!

E dormiram.

ONDE ESTÁ O MUNDO?

ONDE ESTÁ O MUNDO?

DONATO RAMOS

 

 

Onde está o mundo?

Onde está aquele mundo maravilhoso ou aquele mundo mau das vastidões sem fim?

O éter sem limites o contém.

Onde está aquele repositório  de tudo  o que nos acontece e surpreende diariamente?

O éter sem limites o contém.

O mundo está onde se encontram a maldade, o carinho, a bondade, enfim, toda aquela gama de diferentes emoções que caracterizam as passagens da existência de todos nós.

“Eu pensei em você, vida malvada

 em seus males que  turba alucinada

num horrendo martírio

a correr, a correr em desatino,

em tumulto e delírio...”.

Feriu, domingo,

A dignidade de um menino.

Era uma criança que brincava na calçada da rua Silva, em Itajaí.

“O anel que tu me deste...” não será mais cantado. A amargura o reveste na emoção reminiscente de uma tarde de domingo. E nós ainda ouvimos o estranho rumor, a princípio vago, depois mais nítido, de um menino que não cantava “o anel que tu deste...” mas que chorava a dor de um semi-estrangulamento.

Onde está o mundo de um menino? Onde está?

O seu mundo, infelizmente, será o medo dos seus semelhantes, o medo de sair sozinho, o medo de tudo de todos.

O  mundo será o nosso medo pelos nossos filhos, dos quais não nos poderemos descuidar um minuto sequer, porque nesse mesmo mundo de alegria ainda existem os maus, os  perversos, os asquerosos, o irracionais vestidos de gente, o instinto bestial de muitos João Avelino Gonçalves, o tarado que toldou de sombras o mundo de um menino.

O seu mundo onde está?

Seu mundo será as quatro paredes de uma cela, as bordoadas que deveriam vir. Mas você nem isso merece, João. Você merece aquilo que lhe queriam dar em frente ao Bar Ponto Chic, naquela tarde de domingo em Itajaí, onde você foi preso por populares. Mas, felizmente prá você, ainda temos a Lei, quando para casos como este, deveríamos aplicar, simplesmente, a Pena Talião.

O CIPRESTE NÃO CHORA

Do livro FOLHAS SOLTAS

 

O CIPRESTE NÃO CHORA

Para Dr. Mário Gentil Costa (Ateu, graças a Deus, como diria o gênio)

DONATO RAMOS

 

 

O portão... o cipreste... a cidade muda... os corredores...

O cipreste está vestido de um verde escuro (tão usado por quem é poeta...) numa eterna mudez, contemplativo.

Olha lá longe e além do muro e vê o mundo dos vivos e dos mortos.

O cipreste é soberbo. É altaneiro, erguido no espaço. Parece sentir na alma esvoaçante de seus galhos que vêem tantos mortos, a prece de beijo que morreu na boca. Mansamente o sino tange e o cipreste verga. São as vozes dos mudos que o cipreste verga... que o cipreste ouve. Somente ele o consegue.

Vozes nostálgicas das igrejas brancas de todas as cidades  no carrilhão da sua memória permanecem.

Ouve até o som esquisito das estrelas...

Pode soprar o vento... gritar a tempestade... ele quase não verga nem balança.

Ostenta na majestade de seus gestos a indiferença de quem não chora, de quem não sente.

É a sentinela da paz do cemitério.

É o cipreste da porta de entrada, que guarda em si os segredos dos anos, das lágrimas furtivas, do engano cruel da vida e da morte.

É o cipreste que não chora, nem geme.

 É o indiferente que não se cansou de ver passar os que não voltam mais...

É o verde-escuro, ereto, firme.

É o que não chora como nós.

É o mistério do tudo ou nada que contém a vida.

Que contém a morte.

É o cipreste que não sabe chorar.

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Do livro FOLHAS SOLTAS

NEM TUDO ESTÁ PERTIDO

DONATO RAMOS

(ao jornalista Adão Miranda - presidente do nosso Sindicato de Jornalistas)

 

Solução? Talvez haja. Haveria mesmo solução para “esta humanidade doida? Um par de sapatos únicos para todos os pés, é impossível”. O que pode haver é uma solução para cada indivíduo, de acordo com as suas dores, com os seus calos, o ambiente em que vive, a sua possibilidade econômica e espiritual. Isto de um modo grosso. Há, ainda, uma corrente sem fim de detalhes que, muitas vezes, botam a perder as nossas vontades e inclinações primárias.

Érico Veríssimo, se me lembro das leituras de criança, já dizia que a humanidade está doida varrida. Está caduca. “Transidos de frio, esfarrapados, doentes, outros sem vintém no bolso, os homens continuam a alimentar erros e ilusões de grandeza, desejos doidos e superstições, egoísmos e ódios”. Se bem que no meio da multidão, dessa população ignóbil de vermes, desse nó imenso desses bichinhos que dão na barriga, começam a surgir, sempre em maior número, personalidades, homens que se destacam da massa, que revelam ainda ânimo forte, espírito organizador. São vozes lúcidas e cheias de esperança no meio da desordem.

Mas os seus esforços são em vão, na maioria das vezes em que tentam fazer alguma coisa. Por quê? Porque a humanidade está velha e doida. Não quer, a velha humanidade doida e velha, se salvar de forma alguma. O hospício não tem paredes pois é o próprio mundo. A humanidade não está “boa da bola”, tem parafusos destorcidos.

Mas as vozes lúcidas não desanimam. Estão cheias de esperanças no meio da desordem, continuam a falar alto. No meio da turba alta vozes lúcidas se levantam e comandam, e promovem, e fazem, mesmo com a má vontade de outros.

Hoje quero levar os meus cumprimentos às pessoas que, de uma forma ou de outra, no meio da confusão da torre de babel que se forma, ainda têm a coragem para levantar a voz e dizer o que pensam e como pensam.

Do meio da multidão muitos rostos ainda se destacam... Muitas inteligências trabalham em prol da coletividade, da paz social, de melhores dias. A essas gotas d’água do imenso oceano, o meu abraço, a minha saudação. É o meu abraço aos clubes de serviço: Rotary, Lions, à organização de formação de líderes Câmara Júnior, Soroptimistas... É o meu abraço aos clubes de pessoas e entidades filantrópicas, aos jornalistas isolados ou em grupo, sempre procurando o bem-estar de todos nós, sempre procurando formar opiniões, discutindo, procurando caminhos. Aos homens e mulheres que conseguem ver além da tranqüilidade de seus lares e das suas mesas, as convulsões sociais que se verificam constantemente. A todos eles me dirijo hoje, desta Emissora, para dizer alto e bom som: Amigos... somos as gotas do imenso oceano de boa vontade que Brasil necessita. Enquanto houver uma alma assim, esperança haverá também.

Enquanto houver uma boca que sorri... mão que dá... espírito que procura soluções, enquanto houver compreensão entre os homens seja qual for a sua categoria profissional, seja qual for a sua religião ou a sua cor, haverá esperança para todos nós.

E poderemos dizer, sem medo de errar:

Nem tudo está perdido!

Alguém ainda vela por alguém.

Alguém se preocupa com alguém.

incógnita

Do livro FOLHAS SOLTAS

INCÓGNITA

DONATO RAMOS

 

Desvendar os mistérios da vida e da morte, quem há-de?

Desvendar os mistérios da doce saudade quem seria capaz?

Desvendar os mistérios do amor, quem haveria de fazê-lo?

Em casos isolados, já o problema sempre apresentou incógnitas indesvendáveis...

Quem diria que pudesse, então, desvendar os mistérios contidos na trilogia citada? Vida e morte se entrelaçam com amor e ódio, advindo daí a saudade que fez matar e reviver unicamente a pungente saudade...

O caso, assim distribuído e apresentado, é comuníssimo e não apresentaria nada mais além do lugar comum, com enxertos de literatura policial ou romances água-com-açúcar dos misterinhos de capa e espada, com beijos ao luar, venenos, fugas, assassinatos, etc.

Não pretendo me deter nessas cenas de há muito repassadas pela pena dos escritores os mais diversos.

O caso de que me ocupo atravessa as raias da sensatez por quem o promoveu e não é mais fácil do que desvendar, da trilogia única, o mistério que serve de tema para romance.

Gumercindo Reis residia em Laranjeiras, município de Taió, Santa Catarina. Cecília Félix Leite, também. Até aí, a história não oferece problemas a desvendar. Surge, no entanto, a parca impiedosa que leva Cecília ao outro lado da rua da vida e, à margem da estrada permanece quatro meses no descanso que deveria ser eterno.

Não o foi.

Isto porque o segundo fator da trilogia movimentada, se fez presente: a saudade de Gumercindo, transformada já em loucura, procura desvendar o mistério que os estudiosos até hoje não conseguiram.

Nas profundezas da noite escura, Gumercindo foi matar saudade. Tomando uma pá, desenterrou Cecília. O mau cheiro de seu corpo era perfume para a saudade... a cor de cera de sua pele era confundida pela negrura da noite... Gumercindo carregou-a uns 700 metros. Enterrou seu corpo novamente, cobrindo com leve camada de terra, deixando, apenas, sua cabeça à mostra.

O que se passou depois, apenas Gumercindo poderá dizer. O que sentiu talvez não poderá descrever. E, ninguém, em sã consciência, gostaria que ele dissesse.

Não serei eu, simples cronista de Rádio, a tentar desvendar o negro mistério da vida e da morte... A quê leva o amor? Até que ponto a saudade pode agüentar...?

Insanidade?

É o que se presume, partindo da lógica.

Cecília teria chamado Gumercindo naquela mesma noite negra e terrificante para o último ato de amor...?

Já se disse que entre o céu e a terra existem mistérios que a nossa vã filosofia não conseguirá, jamais, desvendar.

Este, é um deles.

CAMINHOS PERCORRIDOS

Do livro FOLHAS SOLTAS

CAMINHOS PERCORRIDOS

DONATO RAMOS

(para José Ferreira Martins)

 

Retornei de uma viagem de recreio bastante proveitosa, tanto para os olhos como para a alma atribulada de coisas vãs e importantes também. Não sei se vocês já tiveram a oportunidade de, algum dia, retornarem pelos mesmos caminhos já percorridos e sentir, e notar, que se alguma coisa mudou em feições humanas e geográficas, o sentimento do retorno é sempre o mesmo, imutável em suas manifestações. E, que direi, então, se o retorno foi o primeiro e os abraços estavam esquecidos há muito mais de dez anos consecutivos? E como é bom rever os rostos de outrora... os sorrisos e as lágrimas de outras épocas a gente vê recordadas naquele mesmo banco de jardim, no mesmo muro onde os livros ficavam enquanto as aulas eram gazeadas... rever as mesmas esquinas, agora sem os antigos prédios que serviam de quadro negro, inclusive para as obscenidades dos garotos menos educados... É quando ficamos contra o progresso que a cidade da gente alcançou durante os anos em que a abandonamos. Os lugares queridos que memória guardou foram substituídos na minha Paraguaçu Paulista.

Ali, naquela esquina, brincávamos na areia. Hoje o asfalto veio substituir. Naquela árvore o Tarzan de 10 anos fazia diabruras... Hoje, resta apenas o mastro da Bandeira Nacional em frente ao edifício de muitos andares. As suas grandes janelas parecem rir da nossa decepção. A compensação no balneário recém construído, explicam eles, desde há muito anos é a obrigação de se usar calção. Bem diferente da época em que era apenas o “Rio Burrinho”, nome da época.

O progresso cimentou os lugares. O asfalto acabou com os campos improvisados das peladas defronte à Estação do trem, no pátio das toras... Entupiu as birocas dos jogos de bolinhas de gude... o tempo encaneceu as frontes... os olhares são mais mortiços... o sol parece sem mais quente...assim como muito mais quente é aquele sentimento que um dia uniu uma juventude que não acreditava na frase do professor Luiz Arrezzi: “O Brasil precisa de vocês bem instruídos... A juventude de hoje será o Brasil de amanhã”.

Se fui, não fiquei sabendo. Ninguém me convidou prá nada!

Mas o que ficou realmente de tantas lutas?

Só o pudemos sentir quando retornamos por algumas horas. Ficou o sentimento da amizade quente de uma infância despreocupada que hoje brinca com a nossa alma, como se fosse dona de nós... E, por caso, não será verdade? Quem até hoje conseguiu se libertar de um sentimento que machuca, faz doer, mas que se perdido fosse, a vida não teria mais valor...?

Então, deixo que doa, que machuque mas que se continue vivendo.

Enquanto houver uma lembrança para ser vivida, um coração que pulse, olhos que vêem, lábios que digam palavras de amizade e lugar para retornar um dia... ainda será bom viver.

Resta dizer - a bem da verdade -  que não encontrei ninguém a quem pudesse reconhecer e abraçar.

Como eu, eles também se foram. E, parece, não vão voltar.

ALMa

Do livro FOLHAS SOLTAS

ALMA DE PIJAMA

DONATO RAMOS

 

No domingo a gente se abandona e se encontra. Sai do lado de fora da gente mesmo para entrar no íntimo e ver tanta coisa esquecida, tanta coisa que, se não víssemos, nunca acreditaríamos existir, nem de longe!

Abandono total... Lassidão mormacenta para quem se entrega aos braços de Morfeu, quando se coloca um pijama de sete listras: segunda, terça, quarta, quinta... a semana numa semana. Descansa-se. Outros penduram os pensamentos num cabide e ficam vazios, vazios... E como  bom! Outros velam pela ignorância espiritual dos abandonados... sacrificam o seu período de lazer pelos outros... São os que rezam, os que pedem... Outros, ainda, têm a felicidade  de morar perto da praia! Ah! As praias de Itajaí, Cabeçudas, Camboriú, Navegantes... As areias já começaram a sentir o contato meigo “dos pés das virgens brancas”...as virgens rosadas, cor de bronze, num raio de sol...

Sonhos de ouro das virgens de ouro que vieram de longe... tarde de ouro à beira da praia...

Nos ouvidos, versos do poeta vento.

Ondas de amor levando o tempo para fora da realidade comum... Dia lindo de praia, manhã de praia, praia que é vida, vida estuante de praia e areia... Praia que serve de berço e esquife. Nascer num dia assim, mas nunca morrer num dia assim, de sol assim, usando  versos do poeta que nasceu num dia assim.

Na estrada de Brusque não tinha praia, não tinha areia, não tinha virgem de pés descalços, mas tinha uma menina de poucos anos.

Não tinha praia.

Não tinha ondas..

Mas tinha a imprudência de um motorista já, talvez, assassino.

E a menina morreu assim. Num dia assim. De sol assim.

Foi menina sem praia, sem areia, sem sol...

Sem ser virgem “de pés descalços”, porque, simplesmente, morreu assim.

SONHOS QUEIMADOS

Do livro FOLHAS SOLTAS

SONHOS QUEIMADOS

DONATO RAMOS

 

A cidade de São Paulo ainda estava de pijama quando o incêndio já era bem visível. No final da tarde, na seção de informações da fábrica, um garoto estava pedindo alguma coisa.

- Não, menino... nós não damos assim, não! Só nas lojas. Aqui é fábrica.

Ali pelas nove horas da noite, tudo começou. Primeiro foi uma simples fagulha e, depois, as labaredas já lambiam o teto numa gargalhada só, cortante e funda. Na frente da fábrica, o garoto olhava sem piscar, pois ainda não havia compreendido a extensão daquilo tudo e da resposta do homem do balcão, quando perguntou se eles tinham brinquedos prá dar.

Grossos rolos de fumaça subiam aos céus e, numa estonteante coreografia fantástica, tomavam formas as mais diversas. Ora, um elefante de matéria plástica, ora uns cãezinhos lanzudos, brancos, ora um palhaço de rendas vermelhas no pescoço. O espetáculo da fumaça que dançava era único. Lá dentro os homens corriam, em todas as direções, com mangueiras compridas, com cadeiras, mesas, trabalhos inacabados. A fumaça continuava a subir e a descer. A subir e a dançar. Agora, os animais brincavam sobre uma bicicleta preta lá no alto. O povo se aglomerava em frente à fábrica que ardia incessantemente. Os bombeiros não davam conta do avassalador poder das chamas. A fábrica de brinquedos Estrela era devorada impiedosamente pelas labaredas. O fogo queimava milhares de sonhos infantis. Crianças que aguardavam os brinquedos de Papai Noel... Papai Noel que, à cada rolo de fumaça subindo, via os preços também subirem nas prateleiras das loja revendedoras. O Natal será mais pobre este ano. Pobre ano. Os prejuízos são incalculáveis. Os brinquedos já existentes custarão muito mais caro e muito mais crianças ficarão mais uma vez sem Papai Noel.

O Natal ainda está longe... mas criança não conta o tempo. Só sabe que bicicleta vermelha está mais vermelha e as cinzas a tingirão de negro.

Os animais peludos não  existem mais. A fábrica queimou.

O garoto, vendo o espetáculo das chamas, olha para o céu.

- Por que fogem os brinquedos? Lá estão subindo... subindo... subindo sem parar e sem olhar para trás... sobem para o além...

Os brinquedos estão sendo devorados pelas chamas que não tiveram infância, porque já nasceram desse mesmo tamanho. Não sabem seu valor.

As crianças olham sem querer compreender que os brinquedos queimados não voltam mais.

A fábrica desapareceu com as chamas, os que conseguiram através dos rolos de fumaça, o garoto sabe, e muito bem, foram brincar muito além do horizonte escuro da noite quente das labaredas.

Os brinquedos foram brincar no céu, com as crianças que morreram antes que tivessem idade para brincar na terra...

- Até que foi bom pegar fogo na fábrica da Estrela! Nem ligo!




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