NATAL!

Do livro FOLHAS SOLTAS

25 DE DEZEMBRO

DONATO RAMOS

 

A cidade estava quieta. Movimento normal de uma normal tarde de dezembro.

Nessa época do ano um frio intenso dominava a cidade.Há oito dias o frio vinha habitando aquela localidade. O último raio de sol poente iluminava a modesta casa de janelas largas.

O menino brincava no quintal. Sua mãe desfia com habilidade, perto da janela, um grosso rolo de barbante para tecer alguma coisa no velho tear de madeira feito pelo marido. A mulher ergue os olhos cansados do serviço. Nota o adiantado das horas.

- Jesus - diz ela em voz alta - largue esse cachorro sujo de terra e vá dar milho pras galinhas...

- Já vou, mãe...

O menino levanta-se. Dá alguns passos e volta-se para a mãe.

- Mamãe... a senhora sabia que hoje é uma data muito importante...?

- Por quê? Hoje é um dia igual a tantos outros, meu filho.

- É que hoje, 25 de dezembro, faz um ano que encontrei o Fiel na rua, lembra-se? Por isso é importante!

Dá alguns passos e, novamente, pergunta:

- Mamãe, a senhora fez o bolo do meu aniversário?

- Fiz, sim, filho. Mas só de noite.

- Ah! Mas o dia é importante, mesmo!

Sorriu, gostando da saída espirituosa e foi dar milho pras galinhas.

Maria e José, seus pais, sorriam.

Eram felizes.

UMA ÉPOCA SEM MILAGRES

Do livro FOLHAS SOLTAS

Donato Ramos

(Academia Cascavelense de Letras)

 

UMA ÉPOCA SEM MILAGRES

 

Perdoem-me contar uma história (já passados alguns anos) onde há tragédia, sonhos desfeitos e interrogações. Muitas interrogações.

Por que será que Deus fez um mundo assim?

De quem é a culpa disso que vou contar?

Nos meus setenta anos, já vi muita coisa, muitas coisas me contaram e se você tiver um tempinho, senta aqui ao meu lado e escute: não vai ser fácil, no entanto, ouvir sem se espantar com a brutalidade da vida, mas é necessário prestar atenção e, talvez, tirar uma conclusão pelo menos aceitável. Escute, amigo:

José Machado, filho de José e Maria, residentes em Xanxerê, oeste catarinense, tinha seis anos de idade.

E, como toda criança, brincava com sua irmã mais nova.

Como sempre acontece veio um desentendimento.

Na sua inocência infantil, José muniu-se de uma enxada e bateu na cabeça da irmã, provocando a sua morte instantânea.

Aí, tudo começou. O começo do fim. De desespero.

Retirado de casa e levado para Chapecó onde, sem ter lugar apropriado, foi conviver na cadeia local, entre facínoras de toda a natureza.

A partir daí, José nunca mais ouviu falar da sua família.

Seu mundo passou a ter uma diminuta dimensão, mas grandiosamente trágico.

Uma cela fria, de paredes lisas, sevícias, medo, choro, ameaças, xingamentos.

Ganhou o apelido de Mazzaropi e acostumou-se a comer mal, dormir pouco e a ouvir palavrões. Vou resumir:

Primeiro perdeu a visa esquerda. Depois, a direita. Cegueira. Problemas no ouvido, perdendo parte da audição.

Depois de sete anos, a imprensa chapecoense – com o advento desse tal jornalismo investigativo - descobriu o fato.

Denúncia pública!

Ficaram sabendo, então, que José tinha medo e que dizia constantemente:

- Me tirem daqui, pelo amor de Deus!... Arrumem alguém que cuide de mim... Não agüento mais tudo isso! Eu tenho medo...

E chorava porque tinha medo.

Sete anos na cadeia de Chapecó. Já estava com treze.

A Coordenadoria Regional da Fundação Catarinense do Bem Estar do Menor arranjou um local para José ficar.

Mas José já havia perdido a família, a irmã a quem inocentemente havia matado numa brincadeira de criança. Mas José estava cego. José estava surdo. José estava muito doente. Roubaram daquela criança o direito de viver. Roubaram de uma criança o direito de ser filho de Deus, como tanta gente pensa ser.

Não tenho mais idade para questionar Deus. Longe de mim essa idéia!

Não inventei esta história. É real. Mas como tudo o que é real parece invenção no mundo em que vivemos, fica apenas uma pergunta que faço a vocês todos que me ouvem ou lêem: de quem é a culpa? Por que a omissão? Por quê ninguém quer ouvir esta e outras histórias que falam das interrogações...?

Por quê...?

UM HOMEM E A CIDADE

(do livro FOLHAS SOLTAS)

UM HOMEM E A CIDADE

 (especial para os Rio-sulenses)

DONATO RAMOS

Academia Cascavelense de Letras

 

 

Foi há muitos anos. A cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina, ainda estava de calças curtas e se criança de verdade fosse, ainda seria o tempo das caçadas com estilingue.

A cidade, se criança fosse nessa época, pelas poucas esquinas que em si existissem, jogaria bolinha de gude.

Nessa época em que ele aqui chegou, há muito tempo, esta era uma cidade que começava a aprender a andar.

A cidade, se criança de verdade fosse, ainda brincaria nas poças d’água, tomando chuvisco fino, molhando os pés descalços nas correntezas deslizantes, pelas ruas desprovidas de pedras ajuntadas, de sarjetas e calçadas.

A cidade era criança suja, borrada, raquítica, pobre mesmo, sem vestimentas e o frio dos seus poucos anos somente era aquecido pelo ardor de crescer, daquela vontade de floris, qualidade que, desde criança, a gente nota em cidades-menina.

Foi nessa época que ele aqui chegou. E seguiu com a cidade. À cada acontecimento ele estava à frente, organizando, planejando, acalentando a cidade-menina em seus braços magros, cantando cantigas de ninar, com sua voz moça, valente, cheia de vida, sonhadora como aquela cidade-menina.

A cidade cresceu com ele; ele viu a cidade crescer. Ajudou em tudo, colaborou em todas as grandes e pequenas obras, lutou por ela, viveu por ela, fez tudo por ela e esqueceu-se de que quando a gente dá aos outros acaba esquecendo-se de si próprio.

Mas mesmo assim, ele era feliz!

A cidade-menina foi tomando juízo, foi pegando formas, foi enriquecendo, conhecendo novas ruas e aterros... e avenidas... melhoramentos... calçado novo, como em dia de festa... e ele via, embevecido, a cidade-menina tornar-se moça e sorriu feliz.

Havia dado tudo de si. As noites indormidas sobre u’a máquina de escrever era a sua luta. As madrugadas foram amontoando-se ao longo do corredor da sua vida e foram tantas que ele acabou se acostumando a não ter noites dele mesmo.

A cidade-menina tornou-se cidade-moça e cidade-mulher e, como toda mulher, era coquete, esquecida, cheia de formas e gostos.

Um dia ele notou que a cidade-coquete tinha gostos às vezes exagerados. Ainda tinha forças para lutar. E lutou! Defendeu a sua honra de cidade-moça através da sua vida jornalística e tornaria a defendê-la fosse como fosse, desanuviando idéias e ações que em torno dela girassem e que não ficariam bem numa cidade-mulher da sua qualidade. A cidade não notou que o velho jornalista agora com os cabelos fugindo um a um, os olhos cansados das noites e madrugadas misturados com os tipos da máquina, estavam falando:

- Toma cuidado, menina (ele sempre a teria como menina... Todo pai ou tutor ou amigo não acha que um dia os outros crescem!) - tome cuidado com o que quiserem fazer com você!

E falou. E gritou. Mas a cidade que já foi, há tempos, cidade-menina, não escuta mais.

E a sua voz não foi ouvida. Também, já era rouca pelos anos vividos.

Os anos já se foram em tantas esquinas novas... O velho jornalista tinha os olhos cansados, os dedos dormentes... a alma alquebrada pelas incompreensões...

Fechou a máquina de escrever.

Ah! A dor de vê-la fechada...!

Os papéis amarelecidos de sua estante velha foram encaixotados, cuidadosamente, como quem cheira uma flor de cor suave. Os velhos móveis... as famílias surgidas da sua família e que já haviam partido... tudo eram recordações, apenas. Apenas faltava partir também; E partiu. A cidade nem viu! Não quer dizer que ela o havia esquecido. Não! Os bons amigos a gente nunca esquece. Talvez, um dia, a cidade, agora não mais cidade-menina, olhará em torno de si, à procura de amparo moral e perguntará a todo mundo:

- Você não viu o Jucy...? Jucy Fiúza Lima... Ele sumiu da minha frente...

(E vai procurar naqueles cantinhos do passado, nas esquinas descalças, na sacola de criança sapeca que brincava de bolinha de vidro... Vai pergunta para as pessoas importantes e antigas... o Fornerolli, o Soldateli, pro Haertel, pro Osny Gonçalves, no Clube Caça e Pesca, no Concórdia, vai procurar o Meu Cantinho, no Lindonmar, vai perguntar pro Hirt, pro Schroeder, na Câmara de Vereadores, no Jornal do Cunha o Nova Faze, Hübsh, Nardelli, na Minister, nas Rádios Difusora e Mirador, na casa dos Roussenq, do Siebert, do Danilo Schmidt, no Pamplona, Soar, Theiss, Larsen, Medeiros, Dellagiustina, Demarchi, Gaertner... e tantos outros que o conheceram em Rio do Sul. Vai se cansar).

Não vai encontrar nada a não ser a poeira do tempo brincando de esconder nas birocas que não mais existem pois o calçamento engoliu. E, talvez, chore de saudade pela partida do seu amigo. E, sentada na velha esquina das bolinhas de gude (quando menina ali se sentava) e o Jacy não vai aparecer. Talvez, um dia, a cidade venha a convidá-lo para uma visita mais demorada, tomar a sua mão e dizer:

- Jucy Fiúza Lima... no dia do seu aniversário eu o procurei mas não o encontrei por aí. Você havia se mudado.Mas hoje eu o quero aqui, sentado ao lado dos outros seus amigos, para receber a homenagem que você merece.Sente-se aqui. Receba o seu prêmio. A rua das bolinhas de gude será a nossa homenagem ao velho jornalista que comigo viveu durante tantos anos, como amigo, como incentivador... Jucy, sente-se aqui, Ao nosso lado. E receba o abraço de agradecimento pelo muito que fez. Você não foi pessoa anônima na nossa vida. Na vida de Rio dói Sul. Foi um dos melhores amigos. E, se hoje sou o que sou, no concerto das demais cidades catarinenses, se hoje eu, cidade de Rio do Sul, sou o que sou, também devo a você.

E, aí, será a vez do Jucy chorar.

OS SONÂMBULOS

OS SONÂMBULOS

Donato Ramos

Os homens lá vão e lá vêm, sempre com os olhos e o pensamento pregados nas coisas que adquirem e gritam, bem alto:

É MEU! QUE NINGUÉM ME TOME! É MEU!

“Os punhais continuarão a florescer”, enquanto o homem não aprender, de vez, o respeito pela dignidade humana. O homem se esquece que os outros também adquirem alguma coisa com o passar dos anos. Por que tem que ser apenas alguns?

Hoje planta-se uma rosa no canteiro que é da gente. Um dia, ao acordar, havemos de encontrá-la desfeita, abandonada pelas aléias do jardim silente, aquela flor que nasceu tão linda! Arruma-se outra flor. No outro dia, a mesma coisa se deu porque alguém resolveu dar mais cor sem ser artista, resolveu faze-la maior como a sua ganância. Em cada pétala caída, voltada para a luz como a pedir socorro, num último aceno treme a gota que o céu chorou.

Abra os olhos, amigo! Veja a sombra ao seu lado! Ela está aí, esperando a vez.Talvez seja o seu melhor amigo, os seus melhores irmãos. Os punhais continuam a crescer e a florescer sobre a terra e muita gente vai desrespeitar a sua dignidade. O sangue de suas rosas derramado será, também, esquecido.

“Existem sonâmbulos à nossa volta...!”

Um dia você percebe uma folha solta que os sonâmbulos deixaram atrás de si. E você, como eu, como a grande multidão de quem não vê, continuaremos passando à procura de novos canteiros, para um novo plantio de rosas... E, para sobreviver, você continuará esquecendo o que lhe fazem. Você e eu existimos para que os sonâmbulos possam continuar também existindo.

Talvez, um dia, num átimo de segundo, na meia-noite de nossas vidas, poderemos reconhecê-los, abraçá-los e agradecer. Graças a eles, aos sonâmbulos, não nos esquecemos do nosso plantio.

Eternamente.

OLHA O PASSARINHO...!

(do livro FOLHAS SOLTAS)

OLHA O PASSARINHO...! (11.6.60)

DONATO RAMOS

 

 

Um casamento morganático? Não, senhores.

Um plebeu...? Não, senhores!

Um fotógrafo.

Uma princesa dos contos de fadas...? Não!

Made in England.

E “made”, nos conformes!

O sapato para o seu pé de Cinderela, Margareth encontrou, afinal!

Antigamente, a escolha ficava na dependência de outras pendentes dependências....

Compreendo que as Casas Reais da Europa não tivessem gostado da escolha da princesa. Afinal de contas, há inúmeros jovens, nobres e mais ou menos desempregados que anseiam por uma solução matrimonial... segura!

O ruim mesmo é que as cabeças coroadas vão desaparecendo da face da terra à medida que os anos vão passando.

Na Antigüidade foi um tal de cortar cabeças que hoje os jovens não encontram uma coroazinha, como Margareth, para um casamento de futuro promissor e livre de prestações...

Antony Jones, afinal, não é plebeu... de todo. Seu pai é Conselheiro da Rainha, com peruca e tudo!

Escolheu o melhor flagrante de sua vida: passou pela sua objetivo e objetivo, aquela a quem prometeu amor, confortar e manter, na doença e na saúde, nas alegrias e nas tristezas...

No entanto, verdade se diga, salvou-se o prestígio britânico, salvou-se a já madura princesa de cair no barricão.

- Olha o passarinho, querida!

Ela olhou.

CLIC!

BOA TARDE, PASSADO!

Do livro FOLHAS SOLTAS

BOA TARDE, PASSADO.

DONATO RAMOS

Academia Cascavelense de Letras

 

 

 

A vida continua sempre com o seu ritmo de quimeras mas você não mais voltará... e é bom que não venha. Não saberia mais vivê-lo.

Sei que você, passado, não chegará de mansinho fazer morada na minha sensibilidade porque houve um destino entre nós.

Você não abrirá os lábios com o sorriso de Papai Noel, como antes, porque houve o tempo entre nós.

Você, agora, é passado, simplesmente.

Eu cresci. Cresci por fora. Mas sua lembrança é tão grande, principalmente nesta época de Papai Noel que nem a noite, nem o destino poderão roubá-lo de mim.

Você, como o Papai Noel de outrora, se torna cada vez mais belo, com aquela felicidade triste, com aquela conformação triste de ver o tempo passar. Hoje, até Papai Noel é passado. As crianças de hoje, amanhã, também terão o seu Papai Noel do passado e sonharão todo o sonho, todas as noites. Os destinos não podem evitar o sonho.

Enquanto se é criança e se tem Papai Noel, o sol inunda a todos de sorrisos e toda a alegria sem destino secará com o calor do outro dia, com as ilusões mortas, quando sentimos a realidade de Papai Noel. Quando se é criança, quando Papai Noel existe, como é bom! Eu me lembro!  Um dia você disse:

- Este ano tá tudo muito caro. Só consegui pintar o carrinho velho...

Quando se é criança, quando não se tem mais Papai Noel, abrimos os olhos com os restos de sonhos e mais uma vez sentimos toda a vida do presente.

Boa tarde, passado!

Você voltou através de um sorriso de garoto com os olhos fixos num revólver de espoleta que se encontrava na vitrina.

Você voltou, passado, mas não trouxe a alegria que eu tanto esperava.

passado: você sabe que o destino é muito frágil para separar duas vidas e hoje eu me vi novamente à frente de uma vitrina de brinquedos de Papai Noel.

Os destinos se separam, as vidas não são as mesmas vidas, mas o garoto que via um revólver de espoleta naquela vitrina da Papelaria Rangel de Itajaí, não era um desconhecido:

ERA EU.

FOLCLORE POLÍTICO

 

Donato Ramos – Academia Cascavelense de Letras

 

 

NOMES DA POLÍTICA

 

TAPIRA é uma cidade paranaense que bem poderia ser chamada de São José. Talvez, até, após o acontecido nas últimas eleições, um plebiscito force de mudança de nome. Veja porquê:

Estou lendo no Diário da Justiça a relação completa dos eleitos e suplentes de 1988.

Em Tapira foram eleitos:

JOSÉ DE SOUZA, para PREFEITO.

Para vice, JOSÉ DE SOUZA.

Até aí nada demais, porque um deles é, também, Batista. No entanto, a curiosidade me leva a ler os nomes que constam como vereadores e suplentes do PTB e do PMDB:

José Belarmino, José Bozolla, José Pinto, José Frigato, José da Silva, José de Andrade e José Franco.

Pode...?

E a BICHARADA?

O jogo do bicho está liberado de uma vez por todas no Paraná. A curiosidade me leva a notar, por alto, algo mais na relação dos eleitos no Estado: a bicharada está tomando conta dos poderes Executivo e Legislativo paranaenses. Senão, vejamos:

É justificada a calma reinante em todo o Estado:

35 vereadores (ou suplentes) de nome CORDEIRO.

22 de nome CARNEIRO.

10 Bezerra.

Aqueles que poderiam até brigar tem um cada: BÚFALO, FALCÃO e GALO.

Temos, ainda:

5 LOBO, 5 LEÃO, 18 COELHO, 1 LEITÃO, apenas 1 TICO-TICO.

Mas existem aqueles que exageram no grupo seco:

Em Peabiru tem um LEÃO COELHO.

Em Guaratuba, um CORDEIRO CARNEIRO.

Em Xambrê, 1 CORDEIRO MANSO.

Na seqüência da leitura vamos encontrando coisas curiosas:

PINTO tem às pamparras! Mas, nota-se, a maioria dos PINTO está na suplência, porque nem todos (e isto é biológico!) chegam na frente.

Nomes próprios impróprios e nomes impróprios próprios, também existem. Ou seja, aqueles que, por força do nome deveriam ser, mas não são. E vice-versa.

Não é que tem um cara muito bacana em Nova América da Colina cujo nome é CARETA?

Um SAPATEIRO, vereador em Marilena, que não sabe botar uma meia-sola?

Em Arapoti o prefeito HOMEAR NEGRÃO não é nem escurinho!

Na cidade de Cascavel, não foi eleito prefeito – para não aumentar a relação – o Jacy SCANAGATTA.

Luiz SALA, em Altônia, ficou na cozinha: é suplente e, na mesma cidade, o Anastácio HÉRCULES não mostrou a sua força ficando na suplência. Talvez, pelo seu terceiro nome: MELISSINHA.

O candidato eleito de Balsa Nova tinha certeza de vencer: VITÓRIO SEGURO.

Em Nova Santa Rosa, novas regras serão obrigatórias na administração: foi eleito prefeito o João MODES.

Na cidade de Maringá teve um candidato eleito mesmo sem o voto da mulher: o ADORNO. A mesma coisa com o STOCORNO, do PDC.

Por falar em Adorno e Stocorno, lembro-me que tem o José GAIO, suplente de Campo Bonito que quebra qualquer “gaio” pra qualquer um.

Já o FRACASSO de Foz do Iguaçu, foi o suplente menos votado pelo PMDB.

Em Cascavel tem um vereador dos mais votados que, mesmo não sendo galo, quer ser o dono do terreiro: o FRANGÃO.

Também em Cascavel, por não ter sido reeleito, teve um que não foi aplaudido: o Álvaro PALMA.

Na cidade de Planalto o vice era o mais cotado para ser o prefeito. Insistiram, mas ele não quis, fazendo jus ao nome: MODESTO CÂMERA. Daria um excelente presidente do Legislativo.

O José Martins BARBEIRO, de Primeiro de Maio, não exerce essa profissão e o José GALERA não vai a campo de futebol.

Em Porecatu tem um vereador que detesta baile: Geraldo CARNAVAL.

No PFL de Renascença, o 2º lugar, tá mais que certo: Alberto SEGUNDO.

Enquanto isso, em Imbituva, por incrível que pareça, chegou na frente o Lourenço MOLETA.

Na mesma cidade, o primeiro suplente do PMDB é o MOLETA SOBRINHO e o 1º lugar do PTB é o Sílvio MOLETA.

Já pensaram se corressem em condições normais?

Descobri, também, que existem em Ivaiporã, um SACCO e um PEIDÃO, além do AYMORÉ ÍNDIO DO BRASIL, em Ponta Grossa e Lauro José LIGEIRO, suplente do PMDB em Cambé.

Não acredita? Então, confira se pensa que estou mentindo!

...

(Faço um pedido: os possíveis leitores dessas cidades citadas fariam o favor de confirmar se, hoje, esses candidatos ainda estão na ativa? Afinal, isto aconteceu nas eleições de 88, quando fui candidato a vice, em Cascavel, em caí do GALHO. E notem: meu nome é RAMOS!

Envie E-mail: donatoramos@uol.com.br).

VAMOS DORMIR JUNTOS, ENTÃO!

Do livro FOLHAS SOLTAS

VAMOS DORMIR JUNTOS, ENTÃO!

DONATO RAMOS

 

A viagem fora cansativa. Perderam o ônibus da Agronômica, no Alto Vale do Itajaí, depois de uma noite de libações. Caminharam juntos e muito à procura  um hotel que lhes desse lugar para dormir. Depois de serem recusados por uma infinidade de porteiros chegaram a uma pensão até bem pouco recomendável. Como o que interessava era dormir o resto da madrugada, entraram. O porteiro, ainda sonolento, recebeu-os com cara de poucos amigos.

- Só tem um quarto com duas camas, serve?

- Serve!  Responderam em coro.

Subiram as escadas. Entram no quarto e, mesmo vestidos, deitam-se na mesma cama, deixando a outra vazia, tamanho o porre. Nem acenderam as luzes. João e Joaquim já estão dormindo em pé e não notam o acontecido. Meia hora depois, no escuro completo, João acorda e diz ao outro:

- Joaquim... há um sujeito na minha cama.

- Na minha também, responde Joaquim. Sabe de uma coisa..?

- Hum...?

- Vamos pô-los daqui à tapa prá fora!

E entram  em luta brava. Há um barulho infernal de móveis e gemidos de feridos, seguido do barulho de um corpo que cai no assoalho.

- Sabes...? Acabei e pôr a nocaute o gajo...

E Joaquim, estendido no assoalho, com o nariz sangrando, diz:

- Eu fui menos feliz... o safado me quebrou o nariz e ficou na cama sozinho...

- Deixa ele! Vem deitar na minha cama. Dormiremos juntos, então!

E dormiram.

ONDE ESTÁ O MUNDO?

ONDE ESTÁ O MUNDO?

DONATO RAMOS

 

 

Onde está o mundo?

Onde está aquele mundo maravilhoso ou aquele mundo mau das vastidões sem fim?

O éter sem limites o contém.

Onde está aquele repositório  de tudo  o que nos acontece e surpreende diariamente?

O éter sem limites o contém.

O mundo está onde se encontram a maldade, o carinho, a bondade, enfim, toda aquela gama de diferentes emoções que caracterizam as passagens da existência de todos nós.

“Eu pensei em você, vida malvada

 em seus males que  turba alucinada

num horrendo martírio

a correr, a correr em desatino,

em tumulto e delírio...”.

Feriu, domingo,

A dignidade de um menino.

Era uma criança que brincava na calçada da rua Silva, em Itajaí.

“O anel que tu me deste...” não será mais cantado. A amargura o reveste na emoção reminiscente de uma tarde de domingo. E nós ainda ouvimos o estranho rumor, a princípio vago, depois mais nítido, de um menino que não cantava “o anel que tu deste...” mas que chorava a dor de um semi-estrangulamento.

Onde está o mundo de um menino? Onde está?

O seu mundo, infelizmente, será o medo dos seus semelhantes, o medo de sair sozinho, o medo de tudo de todos.

O  mundo será o nosso medo pelos nossos filhos, dos quais não nos poderemos descuidar um minuto sequer, porque nesse mesmo mundo de alegria ainda existem os maus, os  perversos, os asquerosos, o irracionais vestidos de gente, o instinto bestial de muitos João Avelino Gonçalves, o tarado que toldou de sombras o mundo de um menino.

O seu mundo onde está?

Seu mundo será as quatro paredes de uma cela, as bordoadas que deveriam vir. Mas você nem isso merece, João. Você merece aquilo que lhe queriam dar em frente ao Bar Ponto Chic, naquela tarde de domingo em Itajaí, onde você foi preso por populares. Mas, felizmente prá você, ainda temos a Lei, quando para casos como este, deveríamos aplicar, simplesmente, a Pena Talião.

O CIPRESTE NÃO CHORA

Do livro FOLHAS SOLTAS

 

O CIPRESTE NÃO CHORA

Para Dr. Mário Gentil Costa (Ateu, graças a Deus, como diria o gênio)

DONATO RAMOS

 

 

O portão... o cipreste... a cidade muda... os corredores...

O cipreste está vestido de um verde escuro (tão usado por quem é poeta...) numa eterna mudez, contemplativo.

Olha lá longe e além do muro e vê o mundo dos vivos e dos mortos.

O cipreste é soberbo. É altaneiro, erguido no espaço. Parece sentir na alma esvoaçante de seus galhos que vêem tantos mortos, a prece de beijo que morreu na boca. Mansamente o sino tange e o cipreste verga. São as vozes dos mudos que o cipreste verga... que o cipreste ouve. Somente ele o consegue.

Vozes nostálgicas das igrejas brancas de todas as cidades  no carrilhão da sua memória permanecem.

Ouve até o som esquisito das estrelas...

Pode soprar o vento... gritar a tempestade... ele quase não verga nem balança.

Ostenta na majestade de seus gestos a indiferença de quem não chora, de quem não sente.

É a sentinela da paz do cemitério.

É o cipreste da porta de entrada, que guarda em si os segredos dos anos, das lágrimas furtivas, do engano cruel da vida e da morte.

É o cipreste que não chora, nem geme.

 É o indiferente que não se cansou de ver passar os que não voltam mais...

É o verde-escuro, ereto, firme.

É o que não chora como nós.

É o mistério do tudo ou nada que contém a vida.

Que contém a morte.

É o cipreste que não sabe chorar.

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Do livro FOLHAS SOLTAS

NEM TUDO ESTÁ PERTIDO

DONATO RAMOS

(ao jornalista Adão Miranda - presidente do nosso Sindicato de Jornalistas)

 

Solução? Talvez haja. Haveria mesmo solução para “esta humanidade doida? Um par de sapatos únicos para todos os pés, é impossível”. O que pode haver é uma solução para cada indivíduo, de acordo com as suas dores, com os seus calos, o ambiente em que vive, a sua possibilidade econômica e espiritual. Isto de um modo grosso. Há, ainda, uma corrente sem fim de detalhes que, muitas vezes, botam a perder as nossas vontades e inclinações primárias.

Érico Veríssimo, se me lembro das leituras de criança, já dizia que a humanidade está doida varrida. Está caduca. “Transidos de frio, esfarrapados, doentes, outros sem vintém no bolso, os homens continuam a alimentar erros e ilusões de grandeza, desejos doidos e superstições, egoísmos e ódios”. Se bem que no meio da multidão, dessa população ignóbil de vermes, desse nó imenso desses bichinhos que dão na barriga, começam a surgir, sempre em maior número, personalidades, homens que se destacam da massa, que revelam ainda ânimo forte, espírito organizador. São vozes lúcidas e cheias de esperança no meio da desordem.

Mas os seus esforços são em vão, na maioria das vezes em que tentam fazer alguma coisa. Por quê? Porque a humanidade está velha e doida. Não quer, a velha humanidade doida e velha, se salvar de forma alguma. O hospício não tem paredes pois é o próprio mundo. A humanidade não está “boa da bola”, tem parafusos destorcidos.

Mas as vozes lúcidas não desanimam. Estão cheias de esperanças no meio da desordem, continuam a falar alto. No meio da turba alta vozes lúcidas se levantam e comandam, e promovem, e fazem, mesmo com a má vontade de outros.

Hoje quero levar os meus cumprimentos às pessoas que, de uma forma ou de outra, no meio da confusão da torre de babel que se forma, ainda têm a coragem para levantar a voz e dizer o que pensam e como pensam.

Do meio da multidão muitos rostos ainda se destacam... Muitas inteligências trabalham em prol da coletividade, da paz social, de melhores dias. A essas gotas d’água do imenso oceano, o meu abraço, a minha saudação. É o meu abraço aos clubes de serviço: Rotary, Lions, à organização de formação de líderes Câmara Júnior, Soroptimistas... É o meu abraço aos clubes de pessoas e entidades filantrópicas, aos jornalistas isolados ou em grupo, sempre procurando o bem-estar de todos nós, sempre procurando formar opiniões, discutindo, procurando caminhos. Aos homens e mulheres que conseguem ver além da tranqüilidade de seus lares e das suas mesas, as convulsões sociais que se verificam constantemente. A todos eles me dirijo hoje, desta Emissora, para dizer alto e bom som: Amigos... somos as gotas do imenso oceano de boa vontade que Brasil necessita. Enquanto houver uma alma assim, esperança haverá também.

Enquanto houver uma boca que sorri... mão que dá... espírito que procura soluções, enquanto houver compreensão entre os homens seja qual for a sua categoria profissional, seja qual for a sua religião ou a sua cor, haverá esperança para todos nós.

E poderemos dizer, sem medo de errar:

Nem tudo está perdido!

Alguém ainda vela por alguém.

Alguém se preocupa com alguém.

incógnita

Do livro FOLHAS SOLTAS

INCÓGNITA

DONATO RAMOS

 

Desvendar os mistérios da vida e da morte, quem há-de?

Desvendar os mistérios da doce saudade quem seria capaz?

Desvendar os mistérios do amor, quem haveria de fazê-lo?

Em casos isolados, já o problema sempre apresentou incógnitas indesvendáveis...

Quem diria que pudesse, então, desvendar os mistérios contidos na trilogia citada? Vida e morte se entrelaçam com amor e ódio, advindo daí a saudade que fez matar e reviver unicamente a pungente saudade...

O caso, assim distribuído e apresentado, é comuníssimo e não apresentaria nada mais além do lugar comum, com enxertos de literatura policial ou romances água-com-açúcar dos misterinhos de capa e espada, com beijos ao luar, venenos, fugas, assassinatos, etc.

Não pretendo me deter nessas cenas de há muito repassadas pela pena dos escritores os mais diversos.

O caso de que me ocupo atravessa as raias da sensatez por quem o promoveu e não é mais fácil do que desvendar, da trilogia única, o mistério que serve de tema para romance.

Gumercindo Reis residia em Laranjeiras, município de Taió, Santa Catarina. Cecília Félix Leite, também. Até aí, a história não oferece problemas a desvendar. Surge, no entanto, a parca impiedosa que leva Cecília ao outro lado da rua da vida e, à margem da estrada permanece quatro meses no descanso que deveria ser eterno.

Não o foi.

Isto porque o segundo fator da trilogia movimentada, se fez presente: a saudade de Gumercindo, transformada já em loucura, procura desvendar o mistério que os estudiosos até hoje não conseguiram.

Nas profundezas da noite escura, Gumercindo foi matar saudade. Tomando uma pá, desenterrou Cecília. O mau cheiro de seu corpo era perfume para a saudade... a cor de cera de sua pele era confundida pela negrura da noite... Gumercindo carregou-a uns 700 metros. Enterrou seu corpo novamente, cobrindo com leve camada de terra, deixando, apenas, sua cabeça à mostra.

O que se passou depois, apenas Gumercindo poderá dizer. O que sentiu talvez não poderá descrever. E, ninguém, em sã consciência, gostaria que ele dissesse.

Não serei eu, simples cronista de Rádio, a tentar desvendar o negro mistério da vida e da morte... A quê leva o amor? Até que ponto a saudade pode agüentar...?

Insanidade?

É o que se presume, partindo da lógica.

Cecília teria chamado Gumercindo naquela mesma noite negra e terrificante para o último ato de amor...?

Já se disse que entre o céu e a terra existem mistérios que a nossa vã filosofia não conseguirá, jamais, desvendar.

Este, é um deles.

CAMINHOS PERCORRIDOS

Do livro FOLHAS SOLTAS

CAMINHOS PERCORRIDOS

DONATO RAMOS

(para José Ferreira Martins)

 

Retornei de uma viagem de recreio bastante proveitosa, tanto para os olhos como para a alma atribulada de coisas vãs e importantes também. Não sei se vocês já tiveram a oportunidade de, algum dia, retornarem pelos mesmos caminhos já percorridos e sentir, e notar, que se alguma coisa mudou em feições humanas e geográficas, o sentimento do retorno é sempre o mesmo, imutável em suas manifestações. E, que direi, então, se o retorno foi o primeiro e os abraços estavam esquecidos há muito mais de dez anos consecutivos? E como é bom rever os rostos de outrora... os sorrisos e as lágrimas de outras épocas a gente vê recordadas naquele mesmo banco de jardim, no mesmo muro onde os livros ficavam enquanto as aulas eram gazeadas... rever as mesmas esquinas, agora sem os antigos prédios que serviam de quadro negro, inclusive para as obscenidades dos garotos menos educados... É quando ficamos contra o progresso que a cidade da gente alcançou durante os anos em que a abandonamos. Os lugares queridos que memória guardou foram substituídos na minha Paraguaçu Paulista.

Ali, naquela esquina, brincávamos na areia. Hoje o asfalto veio substituir. Naquela árvore o Tarzan de 10 anos fazia diabruras... Hoje, resta apenas o mastro da Bandeira Nacional em frente ao edifício de muitos andares. As suas grandes janelas parecem rir da nossa decepção. A compensação no balneário recém construído, explicam eles, desde há muito anos é a obrigação de se usar calção. Bem diferente da época em que era apenas o “Rio Burrinho”, nome da época.

O progresso cimentou os lugares. O asfalto acabou com os campos improvisados das peladas defronte à Estação do trem, no pátio das toras... Entupiu as birocas dos jogos de bolinhas de gude... o tempo encaneceu as frontes... os olhares são mais mortiços... o sol parece sem mais quente...assim como muito mais quente é aquele sentimento que um dia uniu uma juventude que não acreditava na frase do professor Luiz Arrezzi: “O Brasil precisa de vocês bem instruídos... A juventude de hoje será o Brasil de amanhã”.

Se fui, não fiquei sabendo. Ninguém me convidou prá nada!

Mas o que ficou realmente de tantas lutas?

Só o pudemos sentir quando retornamos por algumas horas. Ficou o sentimento da amizade quente de uma infância despreocupada que hoje brinca com a nossa alma, como se fosse dona de nós... E, por caso, não será verdade? Quem até hoje conseguiu se libertar de um sentimento que machuca, faz doer, mas que se perdido fosse, a vida não teria mais valor...?

Então, deixo que doa, que machuque mas que se continue vivendo.

Enquanto houver uma lembrança para ser vivida, um coração que pulse, olhos que vêem, lábios que digam palavras de amizade e lugar para retornar um dia... ainda será bom viver.

Resta dizer - a bem da verdade -  que não encontrei ninguém a quem pudesse reconhecer e abraçar.

Como eu, eles também se foram. E, parece, não vão voltar.

ALMa

Do livro FOLHAS SOLTAS

ALMA DE PIJAMA

DONATO RAMOS

 

No domingo a gente se abandona e se encontra. Sai do lado de fora da gente mesmo para entrar no íntimo e ver tanta coisa esquecida, tanta coisa que, se não víssemos, nunca acreditaríamos existir, nem de longe!

Abandono total... Lassidão mormacenta para quem se entrega aos braços de Morfeu, quando se coloca um pijama de sete listras: segunda, terça, quarta, quinta... a semana numa semana. Descansa-se. Outros penduram os pensamentos num cabide e ficam vazios, vazios... E como  bom! Outros velam pela ignorância espiritual dos abandonados... sacrificam o seu período de lazer pelos outros... São os que rezam, os que pedem... Outros, ainda, têm a felicidade  de morar perto da praia! Ah! As praias de Itajaí, Cabeçudas, Camboriú, Navegantes... As areias já começaram a sentir o contato meigo “dos pés das virgens brancas”...as virgens rosadas, cor de bronze, num raio de sol...

Sonhos de ouro das virgens de ouro que vieram de longe... tarde de ouro à beira da praia...

Nos ouvidos, versos do poeta vento.

Ondas de amor levando o tempo para fora da realidade comum... Dia lindo de praia, manhã de praia, praia que é vida, vida estuante de praia e areia... Praia que serve de berço e esquife. Nascer num dia assim, mas nunca morrer num dia assim, de sol assim, usando  versos do poeta que nasceu num dia assim.

Na estrada de Brusque não tinha praia, não tinha areia, não tinha virgem de pés descalços, mas tinha uma menina de poucos anos.

Não tinha praia.

Não tinha ondas..

Mas tinha a imprudência de um motorista já, talvez, assassino.

E a menina morreu assim. Num dia assim. De sol assim.

Foi menina sem praia, sem areia, sem sol...

Sem ser virgem “de pés descalços”, porque, simplesmente, morreu assim.

SONHOS QUEIMADOS

Do livro FOLHAS SOLTAS

SONHOS QUEIMADOS

DONATO RAMOS

 

A cidade de São Paulo ainda estava de pijama quando o incêndio já era bem visível. No final da tarde, na seção de informações da fábrica, um garoto estava pedindo alguma coisa.

- Não, menino... nós não damos assim, não! Só nas lojas. Aqui é fábrica.

Ali pelas nove horas da noite, tudo começou. Primeiro foi uma simples fagulha e, depois, as labaredas já lambiam o teto numa gargalhada só, cortante e funda. Na frente da fábrica, o garoto olhava sem piscar, pois ainda não havia compreendido a extensão daquilo tudo e da resposta do homem do balcão, quando perguntou se eles tinham brinquedos prá dar.

Grossos rolos de fumaça subiam aos céus e, numa estonteante coreografia fantástica, tomavam formas as mais diversas. Ora, um elefante de matéria plástica, ora uns cãezinhos lanzudos, brancos, ora um palhaço de rendas vermelhas no pescoço. O espetáculo da fumaça que dançava era único. Lá dentro os homens corriam, em todas as direções, com mangueiras compridas, com cadeiras, mesas, trabalhos inacabados. A fumaça continuava a subir e a descer. A subir e a dançar. Agora, os animais brincavam sobre uma bicicleta preta lá no alto. O povo se aglomerava em frente à fábrica que ardia incessantemente. Os bombeiros não davam conta do avassalador poder das chamas. A fábrica de brinquedos Estrela era devorada impiedosamente pelas labaredas. O fogo queimava milhares de sonhos infantis. Crianças que aguardavam os brinquedos de Papai Noel... Papai Noel que, à cada rolo de fumaça subindo, via os preços também subirem nas prateleiras das loja revendedoras. O Natal será mais pobre este ano. Pobre ano. Os prejuízos são incalculáveis. Os brinquedos já existentes custarão muito mais caro e muito mais crianças ficarão mais uma vez sem Papai Noel.

O Natal ainda está longe... mas criança não conta o tempo. Só sabe que bicicleta vermelha está mais vermelha e as cinzas a tingirão de negro.

Os animais peludos não  existem mais. A fábrica queimou.

O garoto, vendo o espetáculo das chamas, olha para o céu.

- Por que fogem os brinquedos? Lá estão subindo... subindo... subindo sem parar e sem olhar para trás... sobem para o além...

Os brinquedos estão sendo devorados pelas chamas que não tiveram infância, porque já nasceram desse mesmo tamanho. Não sabem seu valor.

As crianças olham sem querer compreender que os brinquedos queimados não voltam mais.

A fábrica desapareceu com as chamas, os que conseguiram através dos rolos de fumaça, o garoto sabe, e muito bem, foram brincar muito além do horizonte escuro da noite quente das labaredas.

Os brinquedos foram brincar no céu, com as crianças que morreram antes que tivessem idade para brincar na terra...

- Até que foi bom pegar fogo na fábrica da Estrela! Nem ligo!

OLHAR DE MATÉRIA PLÁSTICA

Do livro FOLHAS SOLTAS

OLHAR DE MATÉRIA PLÁSTICA

DONATO RAMOS

 

 

A menina falava para que a boneca da vitrina a escutasse.Em seu corpinho muito magro dançava um vestidinho vermelho. Um sorriso puro e meigo brincava em seus lábios. A boneca a olhava com os olhos artificiais. Olhar sem cor para nós que não entendemos o olhar de bonecas... olhos que falavam à menina da vitrina de um mundo para ela inexistente, um mundo de casinhas, um mundo de fadas...

Para a menina da vitrina, eram olhares artificiais também mas que traduziam tanta coisa que nós nunca chegaríamos a entender. Era, para nós, silencioso o olhar da boneca da vitrina. A menina olhou em redor. Seus olhos castanhos entravam em meus olhos que a observavam. Surpreenderam a minha emotividade que há muito pensara haver perdido. Deram para a minha sensação um sentido novo e diferente de olhar de boneca, inexpressivos mas que também chegou a me falar de um outro mundo, mais feliz, sem hipocrisias, sem Natal para gente grande. Natal somente para crianças que olham vitrinas.

Há tanta gente que não compreende o olhar de uma boneca! A sugestão daquele olhar mortiço tem de ser compreendido pelos grandes... a meiguice daquele rosto inanimado para nós mas cheio de vida para as crianças que olham vitrinas... o carinho disfarçado em papelão ou matéria plástica... tem de ser observado e sentido por nós. A menina de vestido vermelho continuava olhando. Faz um gesto disfarçado de carinho através do vidro, todo cheio de palavras de boas festas.

A menina não sabia que a frase era somente dirigida às pessoas grandes que não entendem de sorriso de matéria plástica. Talvez ela nunca chegasse a compreender. Houve um sussurro de alguma coisa. O sol beijava a boneca inanimada.  A menina de vestido vermelho beijava a boneca. O tumulto de gente passando... a menina... a boneca... gente...

Para aquela menina não havia tristeza no mundo, nem amargura, nem desolação, nem dor. Havia, isto sim, a boneca que conversava com ela num brinquedo apenas imaginado, no quintal sem cerca de sua casa. Havia somente um sussurro... uma garota que olhava através do vidro de uma vitrina de brinquedos caros. O olhar inexpressivo de uma boneca... olhar de quem oferece a angústia e o prazer. Olhar escondido em sonhos de criança... olhar ocultando ilusões. Menina que amava sem nada... possuía, apenas, o desejo de possuir uma boneca. Gente que continuava passando não via o sorriso da boneca da vitrina... um sorriso triste de quem dá adeus para sempre.

Uma boneca que também foi feliz por instantes.

Gente que continuava passando sem ver um olhar de ilusão em matéria plástica... Aquela gente que continuava passando em cessar.

Sem parar.

Sem sentir.

Gente...

o anjo da guarda

Do livro FOLHAS SOLTAS

O ANJO DA GUARDA

DONATO RAMOS

 

O anjo da guarda, molhado à força pelo vento sul de Florianópolis disse “até logo” e deu no pé. A cidade ficou sem o seu anjo da guarda mas, mesmo sem ele, o povo da ilha tem o mesmo pensamento: reciprocidade, humor bastante acentuado em suas veias, destino de sofrer com um sorriso nos lábios. Êta, povo bom! Ninguém estrila! Pode ver a maior das barbaridades e, se se abala, é por dentro. Ninguém nota.

Uma estrangeirinha - italiana - passava alguns dias na capital catarinense, na casa do Mauro Amorim, homem das letras e das artes.

E o Mauro  a dizer:

- Isto é que é terra, menina! (Tomara que não haja vento sul hoje, pensava ele). Isto é que é lugar sossegado, gostoso, de gente bem educada...

- Ah! Já notei - dizia em italiano, que o Mario, lógico, entendia - todos são tão amáveis... É tão bom viver longe de opressões políticas, militares e uma porção de coisas mais que têm lá no meu país... Lá a gente não pode fazer nada!

- Pois é, aí está a vantagem da nossa Democracia. Escute: você já notou a beleza do mar, agora à noite...?(Agora, sim, a conversa vai pro ponto que o Mauro mais entende - a poesia!). Chamaram mais dois casais, prá não pegar mal. Botaram o jipe em funcionamento e desceram algumas quadras em direção ao mar. A italianinha iria ver o mais belo espetáculo da noite. E apreciaram a beleza da natureza que Deus deu à mais bela ilha que o mar contém.

- Lá na Itália a gente não pode nem sonhar com uma liberdade igual a esta. Agora tem melhorado um pouco mas de vez em quando a gente passa uns apuros...

TOC-TOC-TOC... Passos pesados. (Como é que a gente escreve dando a impressão de passos pesados?). Toc-toc-toc... parece muleta... Bem, eram passos pesados, o que interessa.

- Como é bom, continuava a italianinha - falando mais que o homem da cobra - a gente viver num país tão calmo, tão gostoso, tão lindo, com gente como esta...

Toc-toc-toc... era de botas.

- E você precisa ver, dizia o Amorim, a lhaneza de trato dos nossos policiais depois que o general nomeou um coronel que sabe mandar mesmo! De cabo prá cima tem que fazer curso intensivo de relações públicas e humanas no Senac...

Toc-toc-toc... Parou. Era um sargento-.

- Ô meu chapa... - é o sargento quem fala, como vocês já puderam ter notado - o do toc-toc - Tu não manjas qui já é hora de se mandar,istupor? Ou vocês dão o pira ou engaiolo todo mundo. Vão fazê fofoca na cama. Já ta na hora de dormir.

- Que é que ele está dizendo - perguntava em italiano a mocinha.

- Bem... ele está dizendo que é bom irmos embora porque daqui há pouco começa a aparecer mau elemento por aqui e nós, como gente decente que somos, podemos nos incomodar...

- E o quê mais...?

- Bem... ele disse que a polícia é para proteger as pessoas decentes como nós. Mas é bom não abusarmos dos maus elementos...

- Ah! Que rapaz educado! Bem que você disse. Se na Itália fosse assim...

MORRER DE FOME

Do livro FOLHAS SOLTAS

MORRER DE FOME         

DONATO RAMOS

 

Quem vive, como nós vivemos, encravados no coração do Estado de Santa Catarina, onde uma vez ou outra os jornais nos alcançam temos, forçosamente, que nos alimentar em notícias acompanhando o noticiário radiofônico, pois este é imediato, sem no entanto nos fornecer detalhes importantes.

Ficamos sabendo de tudo à medida que os fatos acontecem e, mais tarde, os detalhes são conhecidos através dos jornais. Uma notícia hoje apresentada pelos noticiários radiofônicos, não necessita que conheçamos os detalhes para que nos prostremos ante um os cavaleiros do Apocalipse, estarrecidos, abobalhados até, ao tomarmos conhecimento de que alguém, na imensa terra da fartura, morreu de fome.

A nota diz que um mendigo foi atendido o pronto socorro  Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, apanhado que foi na Praça da Misericórdia. Ao dar entrada no Hospital, faleceu de inanição.

Morreu de fome, o  mendigo.

Sua identidade não o levantada, mas está sendo apontado como um conhecido homem que tocava realejo em diversos pontos da cidade maravilhosa.

Aí, você está deduzindo que o restante da nossa crônica de hoje será um acicate à maneira de vida que estamos levando, à forma pela qual as coisas  andam, o alto custo da sobrevivência, à falta e amparo, enfim tudo aquilo que, enfileirados, encaminham o homem ao desespero, à falta de confiança, à falta de fé no seu próprio destino a terra.

E, logicamente, seria o tema dos mais procurados para se escrever alguma coisa ou mesmo, ligar uma campanha política pois, além de arrancar lágrimas daqueles que têm um coração bom, arrancaria também uma meia dúzia de votos. Seria o tema ideal para uma demagogiazinha bem engendrada, planejada, pois o tema é riquíssimo e, diariamente, existe gente morrendo de fome por esse brasil-de-meu-deus. E, mais ou menos assim seria, amigos, se não houvesse uma complementação nesta mesma notícia, o que faz com que esse mesmo mendigo que morreu de fome, não venha a ser olhado agora como um mártir do nosso sistema. O mendigo que morreu de fome não vai ganhar “post-mortem” a crônica que em vida não ganharia, por um simples motivo: em poder do mendigo que morreu de fome, foi encontrado um saco de aniagem contendo mais de 200 mil cruzeiros em notas de cinco, dez e vinte.

Foi, simplesmente, por essa razão, que o mendigo que morreu de fome não ganhou de nós e da imprensa nacional uma página que faria chorar e comover a quem ouvidos tivesse...

ESQUINDÔ

DO LIVRO folhas soltas

ESQUINDÔ, ESQUINDÔ...

DONATO RAMOS

(lembrando o Mestre JWDIAS)

 

Mefistófeles hoje, ali pelas nove horas, acordou, deu um grande bocejo, olhou a  cidade de Itajaí com olhos cobiçosos e sorriu consigo mesmo. Tirou a papeleta da folhinha: 27 de fevereiro de 1960 - sábado.

Ora, ora! E não é que o dia chegou?

Estava contente, Mefistófeles o rei das trevas. Fez a barba, após passar um sabão bastante perfumado, tomou o seu café da manhã e foi rebuscar o seu arquivo à procura de uma roupa apropriada. Era roupa, era papel, fotografias, faixas... Ah! As faixas!

Abriu o baú (vermelho, é claro!) viu as suas queridas faixas dos anos anteriores... faixas e mais faixas... Acariciou-as, beijou-as e, mais uma vez, leu o que estava escrito:

“Mefistófeles é o maior!”  uma infinidade de dísticos em outras faixas.

Sorriu contente. Mefistófeles era feliz. Hoje é o início de sua nova campanha em busca de novos triunfos. Hoje ele quer ganhar uma que diga assim: “Mefistófeles”, Rei do Carnaval!”.

Sobre a mesa encontrou uma revista: Sucessos do Carnaval. E, batendo com os nós dos dedos contra a madeira da mesa, marcava o ritmo gostoso do “Vai que é mole”...

Na outra página encontrou: “Cacareco... está faltando pão...criança sem escola...etc.”. E ria. E ria gostoso!

Ria porque, enquanto uns gastam tanto dinheiro entre as quatro paredes do Carnaval, durante quatro dias, outros morrem de fome nas sarjetas ou em seus barracos. Para Mefistófeles será, sem dúvida, uma grande vitória este ano.

Mas, o Carnaval, válvula  escape das multidões, (nova, esta, hein?) não se importa com Mefistófeles. Vai ser tudo na base do “Vai que é mole”, “Homem vestido à feminina”... “Meninas sérias vestidas daquele jeito...outras meninas menos vestidas...”.

Dramas e comédias se misturando, formando o coquetel que Mefistófeles aprecia.

Mefistófeles coça a barba e sorri diante do espelho. Sai. Sorri. Fecha a porta atrás de si. Tem um encontro marcado com os seus súditos. Sai por aí à procura e “almas irmãs”... Ninguém ligará pra ele, porém. Desta vez Mefistófeles será esquecido no turbilhão louco da alegria louca. Será esquecido no frenesi que de todos se apossará. Em gestos incoerentes o folião dirá ao compasso do samba, tocado pela orquestra Itajaí, sob o comando do maestro Neni, com o Balhu no contra-baixo e os demais contratados na última hora no Morro Cortado...

- Mefistófeles... Vai é mole!...”.

 E o Sílvio dá um agudo no piston!

BRINQUEDO VELHO

Do livro FOLHAS SOLTAS

BRINQUEDO VELHO

DONATO RAMOS

(para Lígia Silveira e Dr. Vinicius Alves Pedreira)

 

- Eu gostaria de poder falar a todos vocês que traduzisse tudo aquilo que eu vi e senti. Tudo aconteceu de manhã. Chovia.  Parecia até que mundo estava chorando de alegria, como os meus colegas, naquele quarto de hospital. O Dr. Vinicius, nosso médico, estava contente. Dona Lígia estava chorando, assim como as irmãs. O seu Donato, da Rádio, também. Não consegui entender porque choravam. Estavam tão contentes! Os brinquedos, sorriam! Eram brinquedos novos e usados. Os usados, contentes por encontrarem novos donos, novas carícias, novas amizades. Os novos, ansiosos em serem acariciados pela primeira vez, com emoção. A vida de um brinquedo deve ser mais interessante do que a nossa; como deve ter sentido a vida bela o brinquedo velho, o Bambi sem orelhas, o macaquinho sem pernas e poucos pelos, a bicicletinha sem uma das rodas... Agora eles serão consertados e, depois, brincarão conosco. Nós, crianças, necessitamos tanto dos brinquedos como os brinquedos de nós. Seriam novas amizades, sinceras, sem desejos outros que o completar-se, a complementação de uns pelos outros.. Como foi linda a manhã de hoje. Bastante brinquedos à espera das nossas mãos... nossas mãos, de há muito esquecidas, esperando aqueles brinquedos...

E como eu gostaria de dizer o quanto somos agradecidos... Ah! Se eu pudesse dizer a vocês o quanto estamos contentes... Chegamos, por momentos, até a esquecer das nossas dores, do motivo tão triste pelo qual fomos internados neste Hospital. A menina ao meu lado, chora de dor... quando viu os brinquedos tão lindos chegarem parou de chorar e sorriu. Nunca tínhamos visto um sorriso em seus lábios. E, hoje, ela sorri! Ganhou uma boneca loura, de vestido vermelho. Não tinha um braço, mas isso não importa. A dor foi maior e ela continuou chorando e rindo. Como eu gostaria de dizer a todos quantos colaboraram nessa campanha dos brinquedos que o seu Donato fez na Rádio Clube, o quanto somos agradecidos. Como eu gostaria de dizer a todos vocês que estamos pedindo a Nossa Senhora para que dê aos nossos amiguinhos, também crianças, que cederam os seus brinquedos para nós, a mesma felicidade que estamos sentindo, que estamos pedindo para eles todos, a condição de serem normais.

Se alguma destas crianças não suportar a doença, se Deus, bondoso como é resolver levar alguém de nós para junto dele, nós vamos contar direitinho o que houve aqui no Hospital Marieta Konder Bornhausen de Itajaí, hoje de manhã. Nós levaremos uma lista dos nomes de todas as crianças do mundo que estão necessitando de brinquedos usados e diremos bem alto os nomes daqueles que nos deram os brinquedos hoje. Eu gostaria de falar a vocês sobre isso tudo, mas não posso... não posso... não sei porque motivo nasci com paralisia cerebral. O Dr. Vinicius sabe e eu também sei que nunca ficarei normal com os outros. Nunca poderei falar, eu sou doente. Mas sou agradecido. Se eu soubesse falar, se eu não sofresse de paralisia cerebral, diria: Deus lhes pague! Nós rezaremos por vocês, nós não estamos mais sozinhos. Nós já temos brinquedos. E que bom que é!

 

A LUA À PRESTAÇÕES

V

Do livro FOLHAS SOLTAS

A LUA À PRESTAÇÕES

DONATO RAMOS

(para Pedro Washington de Almeida - jornalista)

 

A Gazeta Literária de Moscou publica, detalhadamente, informações sobre os planos soviéticos de enviar foguetes tripulados à Lua, Vênus e outros até o ano de 1966. Muitas das previsões do gênio que foi Júlio Verne já são realidade e outras estão prestes a se concretizar. A notícia da Gazeta moscovita poderia causar surpresa, não fora a familiaridade com que vemos os ainda inexplorados planetas vizinhos.

Tudo é tão natural... não conseguimos, de mediato, entender o interesse que essas viagens interplanetárias poderiam nos trazer antes de descobrir por completo o próprio planeta que habitamos. A verdade é que essas viagens servirão mais diretamente para satisfazer o eterno desejo de aventuras e conquistas do homem. Se a conquista o espaço se tornar realidade - e é lógico que sim! - o homem terá, inclusive, novas maneiras de explorar a ingenuidade de seus semelhantes (ingênuos haverão por todo o sempre) e surgirão companhias encarregadas do loteamento de Vênus, Marte, etc. Os poucos de nós que passavam o fim de semana na Lagoa da Conceição, Bom Abrigo, Camboriú ou Cabeçudas, deixaremos, alguns outros, de o fazer. Esse fim de semana deixará de sr privilegio de uns, para se tornar um lugar comum dos menos desprotegidos pela sorte. Os que possuírem meios embarcarão todos os sábados em seus projéteis particulares e irão fazer o seu week-end em Vênus. As Emissoras de Rádio lançarão para o éter sem fronteiras, a núncios assim:

“Agora, ao seu alcance... Compre um lote de lureno no Jardim Lunático e passe os mais agradáveis momentos de sua vida! Pavimentação de grama sintética já em andamento... Condução e oxigênio fácil, além de condução para qualquer ponto do espaço. O Jardim Lunático está situado pertinho da Estação de Teleguiados. Prestações suaves a partir de 600 mil cruzeiros...”.

E, ainda, não é nada!

Sou capaz de apostar que muita gente não vai acreditar porque as prestações são baratinhas e, quando a oferta é demais, o santo desconfia...

VAMPIRO SEM SORTE

Do livro FOLHAS SOLTAS

VAMPIRO SEM SORTE

DONATO RAMOS

 

 

Itajaí em Santa Catarina, mesmo às vésperas de eleições, tem carência de notícias sensacionais, coisa que não existe em eleições, de pronunciamentos esquisitos, de brigas. É uma cidade pacata por excelência, salvo quando jogam os dois times da cidade: Marcílio Dias e o Barroso. No mais, é cidade onde nada acontece assiduamente. Uma harmonia fora do comum reina na cidade. No entanto, como em toda a parte do mundo, o povo quer notícia quente, quer assunto para comentar no bar do finado Maneca, quer conversinhas para passar à frente, para as comadres, com as vizinhas, etc.

E, quando nada acontece, o povo inventa. Foi o que aconteceu mais uma vez.

A primeira história da semana foi aquela dizendo que uma senhora havendo sonhado com Nossa Senhora Aparecida. Vendo que a mesma era de cor, resolveu jogar no macaco. Pois não é, diz o povinho, que no outro dia a mulher virou macaca e tinha uma fila de pessoas na frente da casa dela prá ver o fenômeno...?

Assunto suplantado agora, quando acharam que aquela história era por demais cabeluda e perigosa para serem comentadas duas semanas a fio. O povo, como sempre, foi imaginoso e acabou por encontrar uma história mais sensacional. A mulher virar macaca não foi nada em relação ao caso de agora. Voltamos à Idade Média, onde tudo acontecia, na base dos grossos livros de bruxaria, onde os casos misteriosos eram decididos por intermédio das mais absurdas manias. Inventaram, agora, um vampiro todinho lá da Idade Média. É inconcebível, dirá você e eu também, que um vampiro atravessasse o temo para vir morar aqui m Itajaí. (logo aqui!) onde a carência de sangue é bem maior do que em outros lugares do mundo. Fosse prá Blumenau... lá todo mundo é coradinho, coradinho...!

Um estivador, talvez atacado numa noite por algum poste malcriado ou por algum malandro educado, apareceu com a cara toda cheia de bolachas. A única história que conseguiu contar em casa foi essa do vampiro.

Quantas vezes, madrugada ata, passei em frente da Igreja Matriz e vi a infinidade de morcegos que lá existe, além de uma coruja que faz parte dos móveis e utensílios do infinito... O nosso amigo já vinha chumbado do Morro Cortado (onde vivem as “meninas”) . A coruja piou, os morcegos voaram. Um deles deu uma voltinha para refrescar os ossos em elegantes circunvoluções... e foi o suficiente para que o dito cujo desembestasse Hercílio Luz abaixo gritando como um louco:

- Ói o vampiro.. ói o vampiro... me acudam!

Mas que há muita gente de orelha em pé, há!

O mais interessante é saber que esse vampiro é tão sem sorte. Burro feito uma porta! Vir parar logo em Itajaí, onde o sangue é artigo de luxo e quando se precisa dele no Hospital Marieta Konder Bornhausen é necessário rezar pro São Serafim Senão Fica Assim e enfiar um toquinho de madeira “o chão”, a exemplo das antigas crenças.

No entanto, não há motivo pra receio. Se o vampiro realmente existiu nesses dias,, nós ainda o encontraremos oscilando, enforcado num poste qualquer, pois num horrendo martírio, a voar em desatino, no delírio da fome e em tumulto de alma, se é que vampiro tem alma. Suicidar-se-á para não morrer de inanição.

Há a necessidade premente, de se deixar um aviso ao vampiro itajaiense, caso ainda não haja se suicidado. Assim:

“AMIGO VAMPIRO:

Venho por intermédio destas poucas e mal traçadas linhas, dizer-lhe que a carne aqui consumida está pelo preço da morte. Quero informar-lhe, ainda, respeitosamente, que o povo não tem dinheiro e, por essa razão, vive comendo só tainha. Quando tem. Quando o povo de Navegantes não come tudo. Alguns já tentaram come te o baiacu, que é venenoso. Só japonês come. Por conseguinte, o senhor, com todo o respeito que os vampiros merecem, não poderá fazer a sua fezinha, nem dar assuas chupadinhas no pescoço de ninguém, pois a tainha ou o baiacu não dá sangue prá ninguém, a não ser para o atravessador que come outras coisas porque não é tatu...

Antes que o senhor morra de fome, dê o pira daqui e vá prá uma cidade melhor alimentada, como Brusque ou Blumenau, Rio do Sul ou Taió, onde tem mais alemães e italianos. Aqui, não vai dar pé mesmo”.

Se o vampiro foi inteligente como aquele da Idade Média, se mandará por esse mundo de crendices...

Caso contrário, se enforcará, alucinado pela fome que “não é sopa”.

SERENATA

Do livro FOLHAS SOLTAS

SERENATA

DONATO RAMOS

 

Ah! As serenatas dos tempos idos... canções em noite de lua (ou na “baga”, em qualquer noite e sem ver a lua), lá iam os seresteiros cantar as suas mágoas ou o seu amor à determinada pessoa.

Chega-se, pé-ante-pé, no portão. Os mais corajosos abrem-no e vão bem juntinho da janela onde dorme a eleita. A um sinal, todos começam a cantar. Muitas vezes bem cantado, bem tocado. Na maioria das vezes, apenas um grunhido de quem ama em silêncio ou quer fazer as pazes da briga do dia anterior. Sempre sobra um par de sapatos pela janela semi-aberta quando não é um pinico - ou apenas, um acender de luzes como sinal de que alguém está ouvindo.

O nosso Brasil brejeiro sempre cantou em suas músicas de serenatas os mais pitorescos temas que se registram pelas ruas, pelas cidades pacatas onde o verbo mais usado é amar.

Até eu fiz algumas: Que pena que tu ya te vas/Que pena /

que yo no puedo ir atrás/ que pena/ todo terminar ahora/Que pena/Nuestro amor va a terminar/Quedará portanto/em cada canto/una sonrisa/e um dolor/Enel quarto/en la sala/o fuera/

ninguém viu/que foi embora/minha alma/meu amor.

Um dia depois, saía outra:

No deve importar el tiempo/no deve importar tel viento/Del dia que ya murió/ni gente que ya olvidó/.

Nos alegres morros, nas velhas esquinas de lampião, ainda ficaram restos de canções, num recanto místico que só  nossa serenata pode cantar.

E, ainda hoje, neste nosso interior, as serenatas estão em vigor. Grupos de rapazes, nas noites quentes de Rio do Sul, pacata cidade catarinense, organizam-se e saem pelas ruas, com violão em punho para, numa demonstração de carinho ou amizade sincera fazerem as serenatas.

Na noite de ontem, ou mais precisamente, na madrugada de hoje, um grupo de rapazes teve mais sorte: Após o show do Duo Guarujá, no “Ponto de Encontro” tiveram a satisfação de serem atendidos, aqueles moços, num convite que fizeram a esse tão famoso duo vocal brasileiro, para que também participasse a serenata.

 Ademar Of, Waldir Meinick, Orly Melo de Liz, Eucárdio Bonemassou e o Duo Guarujá saíram por aí. Foi tudo muito bem até que chegaram numa determinada casa. Na metade da primeira música aparece o dono da casa, um homenzarrão deste tamanho, com um pedaço de pau, de tamanho descomunal, na mão. E, sem esperar o acorde e o tempo exato da música “Encoste a sua cabecinha no meu ombro e chora”, foi dizendo:

- Isso não é coisa que se faça... Amanhã eu tenho que levantar cedo prá trabalhar na relojoaria de consertos e pagar o aluguel...

- Mas meu amigo - tenta dizer  Olinger - isto é uma demonstração de amizade e nós estávamos..

- Não quero saber... vocês deveriam ter avisado que vinham fazer serenata “no meu casa”...

Bem, depois desta, nada mais e teve para dizer. A serenata ficou por ali. A lua, envergonhada, desapareceu e o grupo voltou o ponto de partida, no meu boteco, para encher a caveira e completar a madrugada. E isso foi feito, enquanto descansava o violão...

O HOMEM DO ANELÃO

Do livro FOLHAS SOLTAS

O HOMEM DO ANELÃO

DONATO RAMOS

 

Sexta feira, 13. Faltava, apenas, ser agosto. Não sei porque mas quando a coincidência se verifica, mesmo não acreditando em sorte ou azar, a gente fica um tanto inquieto e com um pé atrás, ainda mais que o dia de hoje marca o comício do presidente para a assinatura do Decreto da Supra, voto do analfabeto e outras coisinhas mais.

Ali, no bar Minister, numa Rio do Sul ensolarada, foi que me veio á mente escrever alguma coisa a respeito do dia, da coincidência da sexta feira 13, do comício e, principalmente, do decreto de desapropriação de terras. Mas - sempre o eterno mas - escrever o quê? É o “mas” da incerteza. Incerteza mesmo no que diz respeito ao papel que essa desapropriação significa, que esse decreto alcança.

Mesa ao lado: um respeitável cidadão, anelão dos mais caros, bochechas rechonchudas, carteira recheada, pagando os aperitivos. Falava alto para que todos ouvissem as suas abalizadas opiniões.

- Esse negócio de desapropriação é negócio de comunista!

Fiquei pensando: de comunista...? Então deve ser, porque aquele respeitável cidadão do anelão deve ser muito inteligente! Mas há uma coisa que eu não entendo: se com a distribuição de terras o país vai ganhar muito mais proprietários; se atualmente, dentre 85 milhões de pessoas, apenas 3 milhões são proprietárias; se com a reforma agrária muitos outros proprietários surgirão... nada mais é do que a consolidação do regime democrático que se baseia no direito da propriedade e à propriedade. Bem, aquele senhor respeitável deve ter as suas razões! Enfiou a carteira no bolso, olhou para o lado onde uma criança pedia um trocado. Levantou-se. Saiu. Não tinha miúdo. E continuei pensando: será que todos os cidadãos respeitáveis pensam assim? Acho que não. Muitos deles sabem que muita gente come sobras de latas de lixo... que outros agonizam, torturados de há muito pela fome... Bem, paremos aqui.

A incerteza continuava. Desapropriação, greves, fome, esmolas, brigas, exército e tantas outras coisas que se conjugam e se entrelaçam deixam-nos assim.

Hoje é sexta feira 13... coincidência do dia do mês com a semana, com comício, com os homens armados, com exército de prontidão.

Será dia de azar? Será o treze fatídico? Será o início do final...? Será o final de muito desespero que agora encontra o caminho que deveria de há muito ser encontrado para a cessação da miséria? Será hoje? Será amanhã?

O cidadão respeitável já almoçou. E bem. Muito bem. Seria um dos três milhões de proprietários? Não sei. Era um cidadão respeitável. De anelão. Sabia o que estava dizendo. Mas não tinha trocado para a criança que pedia. Não havia lido, talvez, a respeito do que falava. Não sabia nada. Nada. Não era de nada. Mas era um cidadão respeitável. De anelão. Tinha projeção. Assim, pelo menos, parecia. Era um cidadão respeitável. Mas não pagava 40 por cento pelo aluguel das terras, daquilo que conseguia dela arrancar com suor e lágrimas, até. Não catava sobras do lixo. Não pedia. Não, porque não tinha trocado. Só isso. Porque todos os cidadãos respeitáveis são cidadãos respeitáveis e sabem o que fazem e o que dizem.

Ou não?

Sei lá!

NOSSO, UMA VÍRGULA!

Do livro FOLHAS SOLTAS

NOSSO, UMA VÍRGULA!

DONATO RAMOS

 

Dizem que casamento bem sucedido é aquele que, na volta da lua-de-mel, os nubentes ainda se falam.

Claro está que existe aqui uma afirmativa bastante pessimista. Às vezes, dura até três meses.

No entanto, existem muitas coisas que dificultam o bom andamento da vida conjugal. Chega, agora, ao conhecimento de todos, outro fator importante,  bastante importante: “quem é o dono de...?”.

Mister (John, é claro!) casou-se. De volta da viagem de núpcias, instalou-se em sua granja no Nevada, vivendo alguns dias em perfeita harmonia com a sua cara-metade. Um dia, em meio a uma conversa rotineira, disse à esposa:

- No próximo ano tenho que aumentar o meu estábulo. Esse que tenho já não dá mais...

A resposta não se fez esperar da nova dona de casa:

- O seu estábulo...? Como “seu”? “Nosso” estábulo!

O marido, sem nenhum estudo sobre o bem-viver no casamento, retruca:

- “Nosso”, por quê? O estábulo sempre foi meu!

- Sim, mas agora que nos casamos tudo “é nosso”!

-“Nosso, uma vírgula! É tudo “meu”, ouviu?

E, com isso, os ânimos se exaltaram a tal ponto que a esposa, louca de raiva, pegou num pau de lenha e desancou o marido. Fê-lo com tamanha violência que ele teve de ficar de cama por dois dias.

Afinal, já curado, levantou-se e andava de um lado para o outro, procurando alguma coisa, quando  a mulher perguntou:

- Que é que você está procurando, John...?

- Nada. Estou procurando as nossas calças... ”.

MENINO REFUGIADO

DO LIVRO folhas soltas

MENINO REFUGIADO

DONATO RAMOS

 

Fugia, da fúria da Guerra e abriam os olhos para um mundo novo, cheio de esperanças... Na carne, os horrores ocasionados pela Guerra que fez desaparecer irmãos... Na alma a certeza de um dia,  em qualquer lugar, encontrar a paz tão sonhada e acalentada na travessia do Atlântico.

- Pai... - era o pequeno Willy - quem são aquelas crianças estendendo as mãos?

- São pobres abandonados. Não têm o que comer e o que vestir, nem onde dormir...

Passaram-se os anos.

Outras lutas vieram. E Willy cresceu. Entendeu o quanto horrendamente bela era a vida e seus afazeres. Traçou para si um horizonte. E seguiu. Atravessou a vida dentro dos seus limites normais e alargou, após, os seus próprios limites.

Um dia, passados muitos anos, já esquecido de tudo o que pertencesse ao passado, vivendo na simplicidade que o acompanhou em todos os passos na cidade de Rio do Sul, e Santa Catarina, em manga de camisa, tratando da terra, das suas plantações, foi cumprimentado por uma senhora.

- Bom dia, seu Schleumer...

- Muito bom ia, dona Lindomar Fornerolli... Bom dia, seu Donato...

- Viemos até aqui porque estamos fazendo ma coleta. Recebemos qualquer coisa a fim de podermos construir o Lar da Menina Desamparada.

Uma só frase. Um mundo de visões do passado passou-lhe pela mente revolta de pensamentos quase apagados. Lembrou-se, em segundos,do egoísmo humano, insaciável, que fez com que há muitos anos uma família para cá viesse, escorraçada pela Guerra.

- Pai, quem são aquelas crianças...?

- São pobres abandonados...

Agora, os anos se assaram. Willy cresceu e aquela senhora vinha recordar-lhe a cena do passado.

- Quer dizer que senhora, como primeira dama do município, quer construir o Lar da Menina Desamparada? Então, eu vou fazer uma oferta: todas estas terras são minhas. A senhora constrói aqui. A terra, o meu esforço, o que posso pertencem às crianças abandonadas. Vamos começar a construir quanto a senhora quiser.

E foi assim. Assim começou. Eu estava junto. Apenas um ano nos separa dessa oferta. Uns deram tijolos, outros, mesas, cadeiras...

O Clube das Mães de Rio do Sul continuou a procurar meios e muitos vieram. E o trabalho está findo. Como tantas histórias acontecidas esta também iria para o esquecimento dos anos, não fosse uma pequena recompensa que os nossos homens de governo resolveram dar a Willy Schleumer o título de Cidadão Riosulense. Nada mais merecido. Nada mais certo do que premiar publicamente uma pessoa que tanto fez pela construção do Lar da Menina Desamparada.

Willy não mais menino refugiado.

Nasceu de novo aqui em Rio do Sul.

ENCONTRO MACABRO

Do livro FOLHAS SOLTAS

ENCONTRO MACABRO

DONATO RAMOS

 

Todos os jornais anunciaram o estranho corpo achado em pleno asfalto de uma rua principal de Curitiba, na manhã de quarta feira de cinzas. Não acredito muito em seres do outro mundo dando sopa por aí, aparecendo pra qualquer um.  Viriam aqui fazer quê, meu Deus?

Fiquei impressionado com a foto que os jornais publicaram. Não tinha, de forma alguma, as feições idênticas aos seres que habitam este Planeta que é nosso. Talvez fosse uma dessas horrendas criaturas que nascem por esse mundo sem fim para pagar, sem saber, algum pecado de qualquer antepassado, como muita gente diz ser possível. Também não acredito que Deus, na sua santa misericórdia, pudesse fazer com que nascesse uma hórrida criatura como aquela vista nos jornais. Era um bicho, não restava dúvida. Seria homem ou mulher?

Teria sexo? Seria deste ou de outro planeta? Mistério. Quem leu os jornais, como eu li, talvez tivesse visto logo na primeira página, o macabro encontro em plena madrugada de quarta feira de cinzas...

Foi achado por um fotógrafo, desses que não dormem, não pulam o Carnaval, que não praticam a orgia, mas trabalham pela madrugada.

O estranho ser, deitado no asfalto da cinelândia foi fotografado assim. Possuía o estanho ser as faces de um amarelo opaco, com listas quase que imperceptíveis, de cor vermelha. As roupas, também elas, eram diferentes das nossas. Na ponta do nariz possuía uma bola verde, de uma cor verde e matérias diferentes das cores conhecidas. Na mão, um tubo que à primeira vista parecia uma arma dessas que vemos nas histórias fantásticas em quadrinhos ou em filmes de ficção.

Na mão direita, um rolo de papel muito bem cortado e enrolado. Seria uma arma desconhecida...? Laser...?

No peito, estava escrita uma mensagem, em letras quase inelegíveis:

“ME DÁ UM DIREITO AÍ...”

Seria um mendigo? Um monstro...? Um ser de outro Planeta...?

Sei lá! Não li a notícia toda.

ao comprido do corpo

(do livro FOLHAS SOLTAS)

AO COMPRIDO DO CORPO

DONATO RAMOS

Academia Cascavelense de Letras

 

Veio-nos à mente um trecho de “A DERRADEIRA INJÚRIA”, de Machado de Assis:

“Era uma voz sem rosto,

um eco sem rumor,

uma nota sem lira,

como a que suspirar

do cadáver disposto

a rejeitar o leito

em que dormira...”.

A cena que ontem vi foi mais ou menos assim. A mesa... a toalha branca... ela ao centro, ao comprido do corpo. Os olhos saltados, como a perguntar:

- Por quê...?

Lá estavam eles apagados.Em volta da mesa, como sói acontecer em ocasiões como essa, os homens e mulheres, olhando incrédulos para a sua direção, conversavam sobre vários assuntos. É a melhor ocasião para falar desde política até a mãe e a morte de alguém.

E a situação era propícia.Ela, imóvel, no centro da mesa.À sua volta, olhos os mais abertos, não acreditavam no que viam.

Sim. Ali estava ela.

Alguém teve a lembrança:

- Alguém deve falar sobre as suas qualidades e a vida que levou...

A idéia morreu ao nascer. Ninguém se aventurava a falar dela, agora tão quieta sobre a mesa de toalha branca.

- Por quê...? continuavam a perguntar os olhos fixos num ponto distante, onde outrora deveria ter sido o seu mundo de sonhos... o seu imenso mundo!

Passados alguns momentos, alguém veio para perto dela. Olhou-a de maneira esquisita. Outros, se afastaram. A tensão aumentou. A oração de costume em muitas famílias que o Tenente Milton Fonseca do destacamento de Itajaí quis fazer - e cito-o para dar autenticidade ao fato! -  não foi feita. A hora era adiantada. Não daria mais tempo para nada. Nem o Padre esperaria tanto!

Pairava naquele ambiente, apenas um pensamento. Foi dado o sinal de ataque e nós nos lançamos sobre o seu corpo amarelado. Arrebentamos as suas pernas, o seu corpo, o seu íntimo todo.

Sabe? Foi a melhor lagosta que já comi em toda a minha vida!

Aquele jantar na Praia da Armação, oferecido à turma da Rádio Difusora de Itajaí, foi um sucesso!

E a lagosta que se encontrava no centro a mesa dentro de poucos minutos não era mais lagosta.

Ninguém mais quis saber da expressão do seu olhar. O que interessava naquele momento era comê-la e nos, claro, assim o fizemos, antes que algum outro aventureiro o fizesse.

E era uma vez uma lagosta de olhar mortiço deitada ao comprido do corpo...

25 DE DEZEMBRO

Do livro FOLHAS SOLTAS

25 DE DEZEMBRO

DONATO RAMOS

 

A cidade estava quieta. Movimento normal de uma normal tarde de dezembro.

Nessa época do ano um frio intenso dominava a cidade.Há oito dias o frio vinha habitando aquela localidade. O último raio de sol poente iluminava a modesta casa de janelas largas.

O menino brincava no quintal. Sua mãe desfia com habilidade, perto da janela, um grosso rolo de barbante para tecer alguma coisa no velho tear de madeira feito pelo marido. A mulher ergue os olhos cansados do serviço. Nota o adiantado das horas.

- Jesus - diz ela em voz alta - largue esse cachorro sujo de terra e vá dar milho pras galinhas...

- Já vou, mãe...

O menino levanta-se. Dá alguns passos e volta-se para a mãe.

- Mamãe... a senhora sabia que hoje é uma data muito importante...?

- Por quê? Hoje é um dia igual a tantos outros, meu filho.

- É que hoje, 25 de dezembro, faz um ano que encontrei o Fiel na rua, lembra-se? Por isso é importante!

Dá alguns passos e, novamente, pergunta:

- Mamãe, a senhora fez o bolo do meu aniversário?

- Fiz, sim, filho. Mas só de noite.

- Ah! Mas o dia é importante, mesmo!

Sorriu, gostando da saída espirituosa e foi dar milho pras galinhas.

Maria e José, seus pais, sorriam.

Eram felizes.




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