AMOR INCONDICIONAL

Outubro/2006

 

Quando estou impaciente e aquela angústia -  que trago dentro de mim há séculos - começa a inquietar-me,

VOCÊ põe os dedos de leve em meus lábios.

Não digo nada. Não blasfemo. Não grito. Não choro.

Quando minhas mãos tremem, pelo tempo que viveram, quando as sinto pesadas, inertes,

VOCÊ, as toma entre as suas.

Minhas mãos se fortalecem, se tornam quentes, ágeis até.

Quando me faço de surdo, teimando em não ouvir a razão, falando alto, bem alto, suplantando o tom de todos à minha volta,

VOCÊ começa a sussurrar, falando baixinho, num tom quase inaudível.

Então, tenho que me esforçar para ouvir, prestando atenção, até que entendo tudo e fico silente.

Quando estou em desencontro, em desespero,

VOCÊ diz que nem tudo está perdido, que nova aurora virá, que o passado não existe mais, que ficará na lembrança apenas o que de fato foi bom, que o novo dia será bem melhor e tudo se arranjará.

Aí, encho-me de coragem e de ternura, reafirmo minha fé e traço novos planos.

O mais intrigante é que VOCÊ jamais me pediu alguma coisa em troca.

Diz, sempre, que nada mais é preciso a não ser minha presença.

VOCÊ, na realidade, deve ser aquela alma que, um dia, inventou o verdadeiro amor! Incondicional!

VOCÊ chega até a se esquecer daquilo que esqueci!

Rádio

ENTRE O CÉU E A TERRA... SONS EXISTEM!

 

Pudéssemos agora ouvir todos os sons que se perdem e se chocam no ar... percorrendo as Galáxias e outros mundos... ouviríamos frases esparsas de Hertz, Branly, Marconi que, criando a telegrafia sem fios e propiciando o Rádio e a Televisão, encheram o mundo de sons e imagens.

“De gente que dança

Que chora

Que acusa

Que perdoa” .

Ouviríamos canções e preces ternas.

Sons e imagens na vastidão incomensurável do infinito

Levando às nebulosas,

Às constelações que os telescópios ainda não alcançaram,

O sorriso das nossas crianças,

A reza dos nossos velhos,

O murmúrio da nossa Terra,

A conjugação das notas musicais que o homem criou.

No casebre humilde perdido na floresta do mundo, na casa modesta

“Do trabalhador que volta

Da mulher

Que trabalha nas fábricas

Ou no tanque,

Na hora do amor

Na hora das desilusões

Na hora da prece”

Da alegria incontida de quem é bom

No ódio de quem é mau,

Aqueles que usam do fenômeno da eletrônica, proporcionam a todos algo mais.

-Não sorria em demasia. Vão descobrir que está feliz...

Ouça esta música, no seu rádio, e ficará silente.

Da sua boca o sorriso se apagará e você se lembrará de coisas mais tristes que a noite que vai chegar.

(Rádio - Cont.)

Pra quem é mau:

- Não tenha ódio assim... sorris... para não descobrirem o quão fraco você é... Ouça esta música, no seu rádio, é uma música alegre. Assim você ficará também!

A todos o Rádio tem uma palavra de conforto.

O Rádio é a força que instiga.

É a força que acalma.

É a força que constrói.

É a força que destrói.

No seu Rádio você escolhe o roteiro de uma viagem através do mundo, pela música,pela fala.

Aqui, a natureza traz a noite fria.

O Rádio embala.

Lá, é sem alento.

O Rádio alenta.

Além, sobre o manto branco da neve que cai brincam crianças,

Deslizam trenós.

O Rádio continua mantendo alertas os pais e os governos, mantendo o elo da segurança e da paz.

Ao juntar-se ao grande batalhão mundial dos que têm essa arma nas mãos, a arma da paz, o Rádio, o amigo das horas alegres, das noites sozinhas dos enfermos, ao tomar um lugar no éter, levando aos céus da Pátria a nossa palavra de fé, toda Emissora deve render uma homenagem a quem começou primeiro:

- Marconi, Hertz, Branly... obrigado por terem possibilitado, passados tantos e tantos anos, sermos novos sons entre o céu e a terra!.

Essa tal de Aninha...

INSISTENTE CARA DE PAU

 

Essa tal de Aninha está conseguindo me tirar do sério. A historinha é sempre a mesma: ela manda, eu não abro. Manda outro, também não abro com medo de pegar um vírus qualquer e, isso, já está durando anos. A tal de Aninha, eu acho, é irmã do Joãozinho que acabou ganhando o canarinho do Padre de tanto insistir. Tem Padre que não agüenta. Quanto mais eu que vivo um tanto quanto distante das coisas da Igreja. 

Olha ela aí, com aquele papo. Sempre o mesmo papo. Qualquer dia abro o E-mail, vejo o que ela quer comigo, pego uma saraivada de vírus, perco os meus dados, jogo fora este computador e compro outro limpinho. Mas aí “piriga” ela vir de novo.

“Olá! Sou eu de novo! Agora consegui arrumar a foto (pelo menos aqui está abrindo), se não abrir agora eu desisto rsrsrs....ai cadastra meu MSN (aninha.p_2006@hotmail.com) que te mando on line. Bjussss”.

É uma verdadeira cara de pau, essa tal de Aninha. Todo santo dia, tem ela na minha tela.

“Agora que eu conseguí seu e-mail sempre mandarei notícias. Espero que não percamos mais o contato”.

Nem a pau, Nicolau! Não a conheci, não quero conhecer, mas ela insiste. Agora disse que descobriu umas fotos da turma. Manda pra mãezinha, manda nega!

“Eu consegui umas fotos da turma, reunida na época da escola! Impressionante como o tempo passou! hehehe!”

Isso é que é filhadaputice: na época em que estudei só se tirava “retrato” na praça da matriz, com um Lambe-lambe de saudosa memória que existia lá em Paraguaçu Paulista.

Tinha uma caixa preta, coberta com pano, também de cor preta e uma lâmpada enorme na mão pra clarear o indivíduo.

No outro E-mail ela se impressionou, a cafajeste:

“Quando vi a foto me impressionei! - Você precisa ver! Não me recordo daquele lugar... Se você lembrar me avise!”.

Vai ver, era na zona. Porque naquela época existia zona, onde mora a família dela. A do meretrício. Só pode ser lá o habitat dessa figura!

(Essa tal de Aninha... - Cont.)

Ah! Me achou bem no meio da foto, perto da árvore! E, ainda, acrescenta que usava óculos a infeliz! Começava ali o anonimato.

“Pelo que vi, você está no meio, perto da árvore... Vê se você recorda de alguém... Espero que sim... Eu estou no canto direito, de óculos!” .

Insiste pra que eu acesse o endereço que ela manda. Até parece que nasci ontem. Já pensou ela roubar todos os trinta reais que tenho no Real, onde recebo a aposentadoria de marajá que sou, comerciário aposentado por tempo de serviço?

“Scanneei a foto, para poder enviar à turma. Para vê-la é só clicar no link que eu salvei. Junto tem mais fotos:”

http://fotos/escola02342/turmatodareunida.jpg

E ela, a tal de Aninha que deve ter saído das entranhas não sei de onde, ainda diz que tem mais fotos.

“Tenho outras fotos, assim que eu tiver um tempo, passarei para o computador e lhe enviarei. Vou ficando por aqui... Depois a gente "conversa" mais!
Abraços, Aninha” .

E você, caro leitor: por quê não anota o endereço e manda um E-mail pra Aninha?

Ela vai adorar.

Vossa Excelência...

VOSSA EXCELÊNCIA É UM ASNO!

 

Que maravilha, quando suas excelências brigam!

“Vossa Excelência é uma besta...” .

“Vossa Excelência é um quadrúpede...” .

“Vossa Excelência é... é... uma Excelência!” .

“Você... você, Vossa Excelência é que está falando com um burro”...

Estou relendo os meus escritos de anos (e olhe que estou em 1978!) e relembrando o bom tempo das churrascadas, dos shows sertanejos em praça publica, na época da eleição.

Mas se os termos dos nossos representantes mudaram um pouco, pela seleção natural havida, os métodos pouco variam hoje daqueles empregados quando se quis buscar os votos necessários para uma vitória apertada.

Aquela maravilha de palavreado,muito melhor que filme francês misturado com italiano, com o Jece Valadão como convidado de honra, parece que terminou.

Mas os presentinhos, os troféus, as caixinhas de fósforos, os pacotinhos de fumo, as carteiras de motoristas, os tapinhas nas costas, as grandiosas bagueiras no mesmo copo babado no boteco das esquinas, as dentaduras, continuam na mesma.

Se a Lei proibiu os grandes discursos no Rádio e na Televisão, não proibiu as andanças de casa em casa, de bar em bar...

E o currículo do candidato, então!

Liguem o Rádio, essa imensidão de emissoras de Rádio dos mais diversos rincões... Você se esborracha. Ontem mesmo ouvi algumas frases esparsas, perdidas no éter sem fronteiras...

Um candidato, no seu currículo, anotava: já foi presidente até da festa da uva... promoveu diversos shows com artistas famosos...

Isto sim, é que é candidato bom!

Se prestarmos bem atenção, poderemos encontrar currículo assim, como aquele publicado no Jornal Tribuna de Brusque:

(Vossa Excelência... - Cont.)

Desde criança vem se revelando um líder natural, tendo sido eleito presidente do clube de bolinhas de gude de Anta Gorda, onde destacou a importância das bolinhas na queda dos cavalos. Freqüentou a Cruzada Religiosa e foi coroinha dos mais assíduos... Como chefe do almoxarifado conseguiu projetar-se servindo cafezinhos a um ex-governador, tendo conseguido, por esses méritos, ser chefe de gabinete.

Apresentou um projeto inédito para a melhoria do trânsito à noite: que todos colocassem pivôs com tinta fosforescentes, pra que o motorista pudesse ver o pedestre no meio da pista.

Se o papo das excelências desapareceu, pelo menos ficaram os currículos. O que já é uma grande coisa!

Crianças...

DIA DA CRIANÇA

1978

Crônica do dia (Antes que me esqueça...), na Rádio Difusora de Rio do Sul-SC

 

 

Hoje é o Dia da Criança. Pelo menos, sempre foi. Agora dizem que a data foi mudada para o segundo domingo do mês, a exemplo do Dia das Mães.

 

Apresentando gesticulação de um troglodita, machucada em todo o corpo, inclusive no rosto, com hematomas, uma criança de 5 anos, Adriene foi socorrida pela polícia de Almirante Tamandaré, a vinte quilômetros de Curitiba e entregue à Delegacia de Menores da Região Metropolitana.

 

Não sei porque essa mania de mudar as datas já consagradas no calendário. Ora, mudar do dia 12, para o segundo domingo...

 

Adriane estava muito machucada, essa é a verdade, verdade que os jornais estão contando. As investigações, ainda no início, registram apenas que a menina de 5 anos vivia sozinha durante todo o dia, longe da família, sem alimentação, obrigando-se a comer folhas colhidas no mato e beber água nos regatos próximos.

 

Talvez as autoridades tenham razão em mudar o dia 12 para o segundo domingo de outubro, o Dia da Criança. Talvez para que toda a família, preste as homenagens às crianças de cada casa...

 

Adriene não fala, nem reage a estímulos, o que dificulta ainda mais as investigações.

Sabe-se, ainda, que seu irmão e levantava diariamente pelos cabelos e a surrava como se fosse um animal, chutando-a depois e obrigando-a a realizar tarefas domésticas, segundo informações da polícia.

 

Esse negócio de mudar o dia 12, Dia da Criança, para o segundo domingo não é uma boa; as crianças vão perder um dia de folga, quando cair no dia de semana.

(Crianças... _Cont.)

O Delegado de Menores, Daniel Issbener, deverá decidir o destino de Adriene.

Os pais da garota serão destituídos do pátrio poder, porque é um caso muito grave, uma coisa horrível, degradante, segundo o próprio Delegado de Menores.

 

Eu não aprovo esse negócio de mudar a data. Dia da Criança é Dia da Criança!

 

Hoje tem sessão cinematográfica gratuita no Dom Bosco par as crianças.

Pena que Adriene não possa vir. Ela mora muito longe.

Ela mora no país do esquecimento...

Quem...?

VELHO...VELHA...

 

(Discurso proferido por ocasião do 2º Congresso dos Aposentados e Pensionistas do Paraná, na FECIVEL, no ano de 1988, patrocinado pelo SINDEC-CASCAVEL)

 

Velho... Velha... Assim o mundo chama vocês.

E diz para que todos ouçam: teu tempo passou. Você envelheceu. Está superado!

E vem o abandono da vida. O abandono de tudo. Aí, vem a desesperança.

Assim estavam os velhos, os aposentados, os pensionistas do meu Brasil. Eis que surge uma idéia a união em torno das mesmas necessidades, para a mesma luta, para os mesmos sonhos outra vez.

E surgem as associações. E surgem as Federações. A Confederação.

E surge a luta sem trégua sobre os Constituintes e, aos gritos, gritos roucos, os velhos lutando por melhores dias, pela composição dos seus ganhos, depois de uma vida inteira de trabalho, de terem colocado o mundo os melhores doutores, os melhores professores, os melhores sindicalistas, jornalistas, jogadores de futebol ou fazedores de jogo do bicho.

Aí, sim, o velho que se sentia desprezado e inútil, viu que ainda tinha forças para a luta e para as grandes vitórias, como o foi na luta na Constituinte e o texto aprovado, em benefício de milhões de almas que sentiram um novo alento para viver.

Hoje, mais uma vez, o velho dá de si e prova que ainda está vivo. Prova que está na luta de sempre, sem se sentir um restolho da sociedade onde vive e certo de que os seus valores serão cada vez mais reconhecidos pelos jovens.

Que Deus ilumine os caminhos dos velhos porque, quando chegarmos lá, aonde eles já chegaram, os caminhos não sejam tão difíceis como foram os deles.

Obrigado, Velho, por preparar a nossa caminhada futura. Obrigado a todos quantos lutaram para que a vergonha nacional do ganho dos aposentados e pensionistas fosse refeita com a nova Constituição.

Acabou-se a vergonha.

(Quem...? - cont)

Começa a gora a esperança de se viver em paz por mais algum tempo que Deus haverá de permitir a todos.

Que este Congresso seja coroado do mais pleno êxito e que se busquem mais soluções para os nossos problemas nacionais, na constante vigília agora, quando da feitura de mais de duzentas leis ordinárias que irão gerir a nova Constituição Brasileira.

...

1988... 2006.

Hoje, remexendo meus arquivos, encontro este pronunciamento que fiz naquele Congresso e me pergunto: do quê adiantou? Do quê adiantou tanta luta se vejo, hoje, os velhos não, os idosos porque não nos entregamos de vez, sem forças para lutar contra o achatamento do seu ganho - e agora bem pior que no passado -, sabendo que quem ganhava o equivalente a dez salários mínimos, hoje não ganha nem a metade.

Aí está o idoso, aquele que ainda sonha. Velho apenas dorme!

Na época eu era mais jovem. Lutei pelos idosos.

Hoje, sou idoso. Quem lutará por mim...?

Uma figura!

UMA FIGURA ÍMPAR,

ANDANDO POR AÍ...!.

(dois mil e pouco)

 

Quando o conheci, já era negro.

Já era gago.

Gago, deixou de ser, depois que fez inúmeros exercícios com pedrinha sobre a língua, conversando sozinho fechado no quarto.

Tanto é que ganhou um concurso de oratória na promoção da Câmara Júnior e do Colégio Alfa de Cascavel, no Paraná.

Negro continuou sendo.

E dos bons, porque chegou a ser presidente da ACES - Associação Cascavelense de Estudantes Secundários e, ali, conseguiu mostrar a força da sua juventude, nas lutas que encetou em favor dos estudantes.

Depois, a gente foi se acostumando com o Luizinho: reunião comunitária, lá está ele; comissões de estudos, lá está ele; reuniões políticas, lá está ele; reuniões da Câmara Júnior - a escola mundial de líderes - lá está o Luizinho; lá está ele nas grandes e pequenas lutas do povão. Em qualquer lugar quem está lá? Ele! Ele não deixa de estar lá, escrevendo - melhorando dia-a-dia o seu vocabulário - sobre tudo, inclusive sobre aspectos nacionais.

Está provado: quer, procura a estrela e haverá de vencer, de ver reconhecida a sua perseverança, a sua força que vem de á de dentro da alma.

Luiz Antônio continua negro.

Mas ninguém põe diferença porque ninguém nota!

Nos jornais...

LENDO OS JORNAIS...

(No Natal, ali pela década de 90, não importando o ano)

 

Logo na primeira página, do primeiro jornal:

- Seqüestrado, empacotado e dopado o bebê...

- Papai Noel é  ameaçado de morte pelo próprio sogro, em Salvador.

- Violentou a viúva que cobrava dívida, em Brasília.

Cansei desse; vou para o outro:

- Professor estuprou aluna menor em quarto de motel, em Belém.

- Discutiu com o pai e foi morto a golpe de peixeira.

- Um homem foi dominado, em Laranjeiras e suas calças foram utilizadas para amarrar os seus pés, enquanto sua camisa foi usada para enforcá-lo. Foi encontrado de cuecas no Morro da UVA.

- Um homem com as mãos amarradas com cordinhas de nylon boiava nas águas do Rio Sarapuí, em São Paulo.

- Detento foi torturado por 15 guardas, também em São Paulo.

Chega. Pego outro jornal. Talvez, melhore:

- Fuzilados os dois presos encaminhados à delegacia, em Três Rios.

- Prenderam a empregada e seqüestraram garotinho, em Porto Alegre.

- 6 policiais e dois advogados do Grupo Anti-Seqüestro foram presos, por participarem de extorsão em seqüestro.

- Espancado e morto a tiros, em Queimados.

(Nos jornais... - cont.)

Sei lá, entende? Largo o jornal e, ao mesmo tempo, acho o início do editorial que estava escrevendo para a Rádio Cidade de Cascavel. Acho que vou rasgar e a Olga Bongiovani ficará em editorial hoje. Veja só o que estava escrito:

“Hoje o por do sol vai ser lindo... E, quando ele chegar, escondido atrás de todo o seu brilho, renascerá de dentro de mim uma nova luz, um novo sorriso, uma nova esperança... As estrelas sorrirão para mim e, dentro dos meus olhos, salpicará algum instante de felicidade...”

Parei para ver o sol se esconder atrás do horizonte conhecido.

Foi aí que abri o primeiro jornal. E, daí, resolvi parar de escrever e rezar por uma nova conduta social para o meu imenso e tão sofrido país.

Mas, mesmo assim, desejo a vocês o tradicional: BOAS FESTAS E FELIZ ANO NOVO!

A vida como ela é...

E, ELA, POR SUA VEZ, FICOU ENVERGONHADA!

 

Rio das Flores é uma cidadezinha do Estado do Rio. De repente, virou à besta e passou a ser o centro das atenções de todo o Brasil, devido a um drama que lá ocorreu e que se parece muito à coisa de Shakespeare.

Amor impossível que termina em suicídio. Só que a história de Romeu e Julieta, ao final de contas, é uma história romântica, bonita e que enternece corações...

A história de José e Ana, ao contrário, dá pena na gente, pois é o tipo da história sem nexo, sem lógica, sem pé nem cabeça.

Foi assim: José dos Santos era casado com Margarida Rocha e tinham dois filhos. Era bem empregado, parecia viver feliz com a esposa, quando não se sabe porque cargas d`água, começou a gostar de Ana Rosa, esposa de Arcelino Amorim Severo, primo do Prefeito local.

(E ela, por sua vez, ficou envergonhada - cont.)

Ora, José tinha 38 anos e Ana 54. Tipo da mulher que encasqueta e encasquetou: que amava.

Ele achou que Ana era o grande amor de sua vida e aos poucos foi se afastando da família, do emprego, ao ponto de passar horas e horas sentado na rua próxima à casa de Ana, olhando-a de longe, para satisfazer seu amor insatisfeito e impossível.

Margarida, um dia, tomou conhecimento do fato e repreendeu o marido, em vão. Este se fez surdo como uma porta e continuou a amar Ana de longe. Até que um dia seu estado mental degringolou.

Com uma dose de corrosivo nas mãos na frente de um amigo boquiaberto ingeriu o veneno e calmamente foi beber água num córrego, nas proximidades do Grupo Escolar Manoel Duarte. Andou, ainda, uns passos e... bumba! Esticou as canelas!.

Sua mulher Margarida, ao saber do fato, ficou desesperada e foi meter a boca em Ana, dizendo ser ela a culpada da morte do marido.

Ana que nada tinha a ver com o peixe, por sua vez ficou envergonhada e como solução também tomou veneno, suicidando-se.

Margarida, então, diante deste segundo suicídio, também tomou veneno. Queimou a língua e foi socorrida a tempo por familiares.

(E ela, por sua vez, ficou envergonhada - cont.)

O quarto personagem da tragédia, o Arcelino, marido de Ana, por sua vez, foi tentado pelo Demo e atirou-se na via férrea. Enquanto isso, Melquíades de Souza, simultaneamente, suicidava-se ao saber que a mulher da qual se separara, vivia maritalmente com outro que nada sabia da estória que estamos contando.

Depois de tanta tragédia procurou-se saber porque em Rio das Flores todo o mundo gosta de venenos. É que houvera, há tempos, uma liquidação de formicida e o povo todo comprou. E, volta e meia, a cidadezinha é motivo para cronistas e escritores passarem o tempo e participarem de algum concurso literário...

E, antes que me esqueça, você quer o endereço...?

Histórias...

ERA UMA VEZ UMA MENINA LOURA

Donato Ramos (8.5.78)

 

Ela e um tal de Waldir Pereira moravam no Rio de Janeiro.

Um dia, sem mais nem menos, diz à namorada:

- Eu namoro só pra passar o tempo...

Os jovens de hoje, em sua grande maioria, estão longe de alcançar o ideal da verdadeira pureza cristã e dela estão se distanciando cada vez mais, numa corrida sem precedentes.

Está existindo um rebaixamento moral das grandes sociedades que ninguém se atreve a explicar. Os psicólogos tentam achar essa explicação e todas as idéias e análises se entrechocam estrepitosamente.

Waldir disse a frase com tamanha e cínica displicência que a garota, num desespero de momento, atirou-se da janela do apartamento onder morava com seus pais. A polícia do Rio de Janeiro pensou-se tratar-se de assassinato.

E o que outra coisa não foi, senão de assassinato? Assassínio de um sonho de moça... assassínio de um ideal cultivado durante cinco longos anos de namoro.

As desilusões vão se amontoando nos caminhos dos jovens.

Benedita de Melo, suave poetisa cega, soube descrever ao vivo a desilusão de uma jovem que se viu esquecida por quem lhe fizera as mais veementes juras de amor. Eis, do seu livro, SOL NAS TREVAS, o soneto HISTÓRIA.

Nos cabelos de sol de uma menina

Jurou ele aquecer-se a vida inteira.

Ela era ainda estudante, pequenina,

Palma nascente de um caudal à beira...

 

Separam-se. Ela cresce ágil, franzina;

Desiludida na afeição primeira,

Sua alma a nenhum homem se destina.

Ele casou-se. Ela ficou solteira.

(Era uma vez... - cont.)

Quando um sobrinho pequerrucho e lindo

Hoje lhe pede entre chorando e rindo

“Conte-me uma história, conte aquela...”

 

Ela repete qual se um conto fora:

“Era uma vez uma menina loura...”

E ninguém sabe que essa história é dela!.

 

E, semelhante a essa pobre menina loura, existem pelo mundo muitas outras, para as quais a vida, em plena mocidade, já bem poucas alegrias oferece.

Umas se tornam poetisas.

Ou, simplesmente, atiram-se do sexto andar de um edifício de apartamentos...

GRUPO DE IDOSOS DO HORTO FLORESTAL-FPOLIS

BEIJA-FLOR

DonatoRamos

15.10.06 - Fpolis

 

 

Estribilho

VEM PRÁ CÁ, BEIJA-FLOR

ME BEIJAR, BEIJA-FLOR

VEM ME AMAR, BEIJA-FLOR

ME QUERER, COM ARDOR.

 

 

Viva a vida, a vida viva

Dia e noite, noite e dia

Pois um dia, a sua vida

Não será o que queria.

 

VEM PRÁ CÁ, BEIJA-FLOR

 

O sol brilha, a noite desce

Todo dia sem parar

Sonho vem, desaparece

O que resta é só lembrar.

 

VEM PRÁ CÁ, BEIJA-FLOR

 

Pra viver com alegria

Neste encontro do idoso

Bata palmas com alegria

Neste dia tão gostoso.

 

(Bate palmas como se canta o estribilho - 3x3)

Amor é isso!

AMOR INCONDICIONAL

Donato Ramos

Outubro/2006

 

Quando estou impaciente e aquela angústia -  que trago dentro de mim há séculos - começa a inquietar-me,

VOCÊ põe os dedos de leve em meus lábios.

Não digo nada. Não blasfemo. Não grito. Não choro.

Quando minhas mãos tremem, pelo tempo que viveram, quando as sinto pesadas, inertes,

VOCÊ, as toma entre as suas.

Minhas mãos se fortalecem, se tornam quentes, ágeis até.

Quando me faço de surdo, teimando em não ouvir a razão, falando alto, bem alto, suplantando o tom de todos à minha volta,

VOCÊ começa a sussurrar, falando baixinho, num tom quase inaudível.

Então, tenho que me esforçar para ouvir, prestando atenção, até que entendo tudo e fico silente.

Quando estou em desencontro, em desespero,

VOCÊ diz que nem tudo está perdido, que nova aurora virá, que o passado não existe mais, que ficará na lembrança apenas o que de fato foi bom, que o novo dia será bem melhor e tudo se arranjará.

Aí, encho-me de coragem e de ternura, reafirmo minha fé e traço novos planos.

O mais intrigante é que VOCÊ jamais me pediu alguma coisa em troca.

Diz, sempre, que nada mais é preciso a não ser minha presença.

VOCÊ, na realidade, deve ser aquela alma que, um dia, inventou o verdadeiro amor! Incondicional!

VOCÊ chega até a se esquecer daquilo que esqueci!




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