Os Sonâmbulos
Os homens lá vão e lá vêm, sempre com os olhos e o pensamento pregados nas coisas que adquirem e gritam, bem alto:
É MEU! QUE NINGUÉM ME TOME! É MEU!
“Os punhais continuarão a florescer”, enquanto o homem não aprender, de vez, o respeito pela dignidade humana. O homem se esquece que os outros também adquirem alguma coisa com o passar dos anos. Por que tem que ser apenas alguns?
Hoje planta-se uma rosa no canteiro que é da gente. Um dia, ao acordar, havemos de encontrá-la desfeita, abandonada pelas aléias do jardim silente, aquela flor que nasceu tão linda! Arruma-se outra flor. No outro dia, a mesma coisa se deu porque alguém resolveu dar mais cor sem ser artista, resolveu fazê-la maior como a sua ganância. Em cada pétala caída, voltada para a luz como a pedir socorro, num último aceno treme a gota que o céu chorou.
Abra os olhos, amigo! Veja a sombra ao seu lado! Ela está aí, esperando a vez.Talvez seja o seu melhor amigo, os seus melhores irmãos. Os punhais continuam a crescer e a florescer sobre a terra e muita gente vai desrespeitar a sua dignidade. O sangue de suas rosas derramado será, também, esquecido.
“Existem sonâmbulos à nossa volta...!”
Um dia você percebe uma folha solta que os sonâmbulos deixaram atrás de si. E você, como eu, como a grande multidão de quem não vê, continuaremos passando à procura de novos canteiros, para um novo plantio de rosas... E, para sobreviver, você continuará esquecendo o que lhe fazem. Você e eu existimos para que os sonâmbulos possam continuar também existindo.
Talvez, um dia, num átimo de segundo, na meia-noite de nossas vidas, poderemos reconhecê-los, abraçá-los e agradecer. Graças a eles, aos sonâmbulos, não nos esquecemos do nosso plantio.
Eternamente.
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